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sábado, 25 de julho de 2009

Os Grandes - Carlos Drummond

"Os Grandes" (Boitempo - 1968)
Carlos Drummond
Análise do Poema




E falam de negócio.
De escritura demandas hipotecas
de apólices federais
de vacas paridas
de éguas barganhadas
de café tipo 4 e tipo 7.
Incessantemente falam de negócio.
Contos, contos, contos de réis saem das bocas
circulam pela sala em revoada,
forram paredes, turvam o céu claro,
perturbando o meu brinquedo de pedrinhas
que valem muito mais.

Análise do Poema

....... A nossa análise se baseia num processo que chamaremos
de estrutura do achatamento. Para tanto vamos recorrer a um
processo visual marcado pelo número de versos, referentes ao
mundo dos grandes e ao mundo do pequeno (mundo da criança).
....... O mundo dos grandes é constituído de dez versos, ao passo
que o mundo do pequeno (mundo da criança) é composto de
apenas dois versos. Visualmente, o poema só possui uma única
estrofe que aglomera os versos dos grandes e os versos do
pequeno (mundo da criança). Vejamos:

.----------------.... -------------------------------- Mundos dos Grandes
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
---------------------------------------------------- Mundo dos Pequenos
----------------------------------------------------

....... Os pontilhados representam a estrofe e os doze versos do
poema. Para enfatizarmos a teoria do achatamento, represen-
taremos a estrofe e os versos em blocos. Vejamos:





....... A partir dos gráficos, verificamos que o universo dos grandes
(bloco cinza) é mais pesado que o universo do pequeno (bloco
azul). Pesado não só visualmente, mas, também, pela carga semântica
que caracteriza este mundo quantitativo, em detrimento ao
mundo qualitativo e lúdico do pequeno (mundo da criança). Vejamos:

Estudo vocabular

. Negócio: comércio, tráfico, relações comerciais.
. Escritura: documento autêntico de um contrato.
. Demanda: ação judicial, processo.
. Hipoteca: sujeição dos bens móveis ao pagamento de uma dívida.
. Apólices: título da dívida pública.
. Vaca: fêmea do touro.
. Parida: que deu luz ao feto (bezerro).
. Égua: fêmea do cavalo.
. Barganha: troca, permuta.
. Café: fruto do cafeeiro, produto de especulação econômica.
. Conto: número, contagem, moeda econômica.

OBS.: a vaca parida, num processo de barganha, compra, ou venda
tem um valor mais elevado. Assim como a vaca a égua é valorizada
por ser uma possível reprodutora.

....... A seleção vocabular dos versos do mundo dos grandes está,
estritamente, relacionada a idéia
quantitativa de posse, poder,
negócio e acúmulo de capital. Tanto isso é verdade que o poema
se inicia com a conjunção aditiva E (idéia de adição, soma, acúmulo)
... E falam de negócio. No sétimo verso, essa idéia é retomada,
reinterada: "Incessantemente falam de negócio".
....... Intencionalmente, o autor faz uso da preposição de (esta prepo-
sição expressa uma noção de posse). Esta preposição é repetida, no
poema sete vezes: de negócio, de escrituras, de apólices, de vacas,
de éguas, de café e de negócio. Isso reforça, ainda mais, esse mundo quantitativo dos grandes.
....... Essas coisas que eles falam e incessantemente falam, saem das bocas, circulam pela sala em revoada, forram paredes e turvam o céu claro do mundo da criança.
....... Os versos reservados à criança, apenas dois versos, estão impregnados de uma indignação lúdica, em que o autor usa a primeira pessoa, expressa pelo pronome possessivo meu (função emotiva da linguagem, desabafo do eu falante): meu brinquedo de pedrinhas.
....... Eles, os grandes, perturbando o universo da criança, não perce-
bem que o brinquedo de pedrinhas vale muito mais.
....... " GENTE GRANDE
.......... É BICHO BOBO
.......... SÓ PENSA EM
.......... PODER MANDAR

.......... será que
.......... GENTE GRANDE
.......... nunca pensou
.......... em brincar?" beré lucas

a águia & a víbora

a águia & a víbora


notáveis pelo seu tamanho e vigor - pessoa de grande
talento e perspicácia

ver a águia voando
no livre espaço do céu



é o desespero da víbora
ruminando na terra o seu fel

espécies de serpentes venenosas - pessoa de má
indole ou de gênio mau



poemas avulsos - 1996 a 2000

poemas avulsos - 1996 a 2000






é no teu corpo mulher

é no teu corpo mulher
que me entrego cativo
e aos poucos vou morrendo
nessa entrega em que vivo

é no teu corpo mulher
que aos poucos me refaço
é nele que me liberto
estando preso no laço

é no teu corpo mulher
que me encontro achado
mesmo me sabendo perdido
por quanto que tenho te amado

o amor

o amor quando é intenso
não respeita calendário
não anda em linha reta
sempre rompe itinerário

segunda vira domingo
quarta se transforma em sábado
qualquer canto é um motel
este amor sempre é sagrado

bem dito seja o amor
quando é assim assado
rompre correntes alça vôo
e se espalha pelos lados

roca do tempo

o tempo com seu fio invísivel
aos poucos vai tecendo o seu tecido
e cava no rosto sulcos profundos
onde antes só liso se fazia

por capricho o tempo arma nos cabelos
uma alvura de lã tão raleada
e na fronte apronta uma clareira
onde antes só adornos se instalavam

no peito crava uma secura
uma indiferença como nunca se esperava
e nos olhos o opaco abafa o brilho
que o tempo só por si se alinhava

saudade

a saudade bate forte
quando é feita de amor
é um nó na garganta
arrochando mais a dor

é um oásis no deserto
seco profundo sem cor
rodeado de areia
onde nunca nasce flor

as nuvens

as nuvens no céu brincando
são gostosas de se ver
parecem algodão doce
brancuras de se comer
barulhinhos tilintando
no ouvido do amanhecer

poética

a poesia é minha estrela
e guia dos meus caminhos

na cerveja me abrando
tiro arestas dos espinhos

no cigarro me disfarço
suspiro bem de mansinho

e na mulher me entrego
sem receio de estar vivo

para que ninguém a quisesse
(inspirado no conto de marina colasanti)

esquecida dos seus anseios
a mulher se amofinou
virousombra entre móveis
feito chama se apagou

ela que era tão linda
que de bela se fartou
agora um vulto perdido
farrapos do que sobrou

e o marido arrependido
sem ter o que sempre podou
carrega nas mãos vazias
memória do que tosqueou

uma breve estória da literatura II

o mal se entrelaça no bem
o sagrado ao profano
ou se desgraça no céu
ou se liberta mundano

a natureza como sempre
repete o velho ditado
se me perco na cidade
no campo encontro traçado

tanto rebanho tão tanto
pastoras pra tantos agrados
que o simples adverte
a vida tem seu cajado

contra o clero e a realeza
com toda força lutei
por liberdade e igualdade
com fraternidade sonhei

mas meu sonho durou pouco
eu que tanto acreditava
pois os burgueses me usaram
pra aquilo que tanto brigaram

e não demorou quase nada
a máquina engoliu o malho
e a exploração das indústrias
minha força de trabalho

infância

a poeira da rua
o pé na bola
o quintal do vizinho
a goiaba roubada
a água do rio
o corpo molhado
papagaio no vento
liberdade tramada

um fio de sonho
lembrança tecida
passado de infância
lamento perdido
saudade no peito
soluço pingado
menino no tempo
a alma partida

um espaço

havia uma vez um espaço
em tudo um tanto vazio
feito um rio sem água
feito uma estrela sem brilho

era duma tristeza tão tanta
seco de lágrimas sequinho
que não havia espaço pra flores
tão pouco para espinhos

mas um dia não sei quando
tudo se transformou
foii quando assim de repente
uma criança chegou

e vendo aquele espaço
vazio tão só sem igual
assoviou uma canção
semelhante a um pardal

e o espaço vazio
se encheu de alegria
feito um tecido de amor
que aos poucos lento se fia

globalização

quando chove
no meu quintal
o mundo molha
todinho

mas eu fico
sem saber
e nisso me perco
todinho

por que será
que o real
perto do dólar
é pouquinho

uma breve estória da literatura III

ela no pedestal
e o poeta cá em baixo
ela toda etérea
e o bardo pobre capacho

ele partiu pra bem longe
e ela sofrendo calada
seu retorno é de incerteza
e ela de corpo abrasado

o mundo que era pequeno
aos poucos foi alargado
e o fio do destino
pelo homem foi traçado

e o que era submisso
rompeu novos horizontes
atravessou arco-íris
foi beber em novas fontes

mas o tempo de uma vida
já é bem delimitado
unir deus e o diabo
se torna mais complicado

a morte no seu cavalo

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
anda pelos quatro ventos
sem ter pressa sem ter hora

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
é d'uma gula implacável
quanto mais menos se farta

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
galopando pela vida
sem aviso logo empaca

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
sem escolha na garupa
qualquer um logo arrebata

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
............................................
............................................

amor amor

ela na torres dos sonhos
forma etérea inventada
e ele um bardo coitado
ruminando seus anseios

mulher nunca houve igual
nem amor tão relevante
que o amor assim sendo
se figura mais prestante

tanto amor tanto por nada
que a amada nem existe
mas num coração dedicado
amor e amada persistem

lucrécia
(uma breve estória sobre uma dama romana)

tão dedicada era a dama ao seu amado
e só por lúcio fiava o seu amor
feito um tecido que aos poucos se alinhava
que nem botão treinando pra ser flor

tal galhardia em tal dama findaria
quando por tarquínio foi violentada
rompeu-se o tecido que então tecia
findou-se a rosa sem ter desabrochado

na casa romana agora é só luto
o tecido reveste-se de mortalha
e a rosa podada agora já sem pétala
enterra no próprio peito a doce espada

haicai inocente

anjos pelados
no varal do arco-íris
alvejam asas

cantar de amigo

distância tanto distante
estando ela do amado
tricota uma volta absurda
com o fio do esperado

seu corpo na noite tremido
tendo o vazio de lado
tece uma lerda esperança
um amor de forma vago

e entre um gozo e outro
pelo tempo acumulado
o travesseiro vira amante
e a saudade pecado

algumas considerações em torno de uma foto

debruçado na sacada da história
paraliso o ponteiro das horas
e teço a geometria do antigo
feito um burro de carraça
carregando no seu dorso
carga de outras memórias

aos poucos a minha saudade
vai erguendo um casarão
onde "a vida de minas"
tijolo por adornos
tece a sua arquitetura
pra ser patrimônio da vida

sou um vulto entre alameda
sem pressa de perder o bonde
porque os trilhos entre pedras
(indiferentes ao bueiro do tempo)
me dão uma certeza nítida
de que a vida permanece
mesmo que seja na foto

falar de amor

não me venham
falar de amor
qu'eu estou
de saco cheio
de tanto amar
de tanto entregar
de tanto sofrer

não me venham
falar de amor
qu'eu estou
de peito vazio
de tanto desamor
de tanto perder
de tanto roer

assim & assado

o mais inteiro
é quem se divide

o que mais tem
é o que mais reparte

o que mais briga
é o melhor amigo

quem planta vento
espanta tempestade

o mais partido
é quem se preserva

o que mais doa
é o que mais retém

o que mais passa
a mão na cabeça

honra seja feita
é o pior compadre

entre sentimentos

entre um sentimento e outro
estando atordoada
a mulher e seus desejos
são lampejos de saudade

o macho deixou sua marca
não na superfície da pele
mas na alma dolorida
que muito mais profundo fere

e ela que vivia tranquila
segura no seu calado
aventurou-se no amor
e por isso anda lesada

a respeito de uma grade

a grade da sacada me agrada
é como se a brisa do tempo
soprasse na minha memória
antigas lembranças

que donzela esteve (aqui) debruçada
vestida e vistosa aguardando
(quem sabe) o namorado
ou que senhora (aqui) esteve
(já cumprida as horas)
aguardando a morte

e os ferros entrelaçados da grade
(apesar do silêncio contido)
revelam coisas antigas:
suspiros perdidos no vento
saudades desconhecidas

em vão a tinta fresca
da grade recém-pintada
tenta sufocar o passado

ausência do amor I

se alguém souber do amor
que me indique o caminho
pra encontrar seja onde for
com ele só um pouquinho

quem souber seu paradeiro
que me dê seu endereço
qu'eu quero ser o primeiro
a sentir o seu apreço

se alguém me informar
será bem gratificado
já vasculhei céu e mar
sem ter nunca encontrado

o amor saiu sem rumo
nem deixou seu endereço
e sua ausência me dói
na garganta pelo avesso

ausência do amor II

a ausência do amor
é uma agulha sem fio
costurando no peito
um tecido tão vazio

a ausência do amor
é um barco sem timão
perdido em pleno mar
naufragado coração

a ausência do amor
é osso duro de doer
é cachorro sempre latindo
sem caninos pra morder

a ausência do amor
é um deserto sem fim
onde dunas se acumulam
e jogam areia sobre mim

determinação

feito um cachorro
(perdido)
viro a lata desse mundo
mesmo sabendo
que é duro esse ofício
(de viver)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

poemas avulsos - 1993 a 1995

poemas avulsos - 1993 a 1995












quem é que?

quem é que tece o dia
se o sol não sabe tricô
e esse céu manta larga
azul quente de calor?

quem é que tinge a noite
se a lua não é pintor
e essa rotunda estrelada
brilhante capote de amor?

canção do exílio

oh! qu'eu não tenho saudade
da minha terra de agora
prefiro a outra de outrora:
onde tinha carambola
a gente jogava bola
e no rio podia nadar

ah! qu'eu não tenho saudade
dessa terra de hoje em dia
prefiro a outra que havia:
onde tinha fantasia
a gente inventava o dia
e menino podia sonhar

ai! que sou todo saudade

inverno

o vento vinha ventando
cantarolando assovio
e soprava tanto frio
que o rio de calafrio
se estreitou num corredor

atrás da montanha o sol
tadinho batendo seus dentes
se enrolava em raios quentes
que nem tal um indigente
se envolve num cobertor

meu pai

meu pai me acorda na noite
batendo na sua bigorna
fundindo metal no cadinho
tangendo na minha memória

meu pai me acorda na noite
tecendo um tempo sem fio
de quando eu era menino
vivendo as coisas qu'eu era

meu pai me acorda na noite
e eu fico me dividindo
entre o presente e o passado
a vida passando a limpo

poema para uma mulher aparentemente magra

a tua beleza mulher
se faz em carne esculpida
em tudo sob medida
sem exagero qualquer

és mulher exatamente
como deverias ser:
pelo de jambo macia
pequenos seios dourados

e esse seu jeito de fêmea
que me deixa transtornado

já faz tempo

já faz tempo
um menino atirado
mudou o passo do trato
arrancou o seu sapato
e saiu descalço no mundo

não faz muito
um homem ousado
se vestiu de menino
e saiu sem destino
pelo caminho tramado

não se faz
um ousado menino
nem um homem atirado
que dão banana pra tudo
e se inventa

sozinhos

filosofia

saber é sabor
sabor é saber

tia miquita
(na sua simplicidade)
fazia isso sempre
na palma da mão

provando as pessoas
espiando as panelas

se nego

se nego aquilo em que me retrato
no quem me retrato em tudo eu me vejo
sou feito cego carente de luz
sou luz apagada acendendo cego

o meu desejo se desfaz em querer
e quando tenho tudo eu nego
sou chama apagada rescendendo fogo
sou fogo aceso apagando velas

o tempo

o tempo com o seu fio
vai fiando o seu tecido
de lembranças colorindo
o menino qu'eu era

já não era sem tempo
que o tempo tricotando
meus cabelos vai pintando
de paina no travesseiro

meu thiago já é moço
aos poucos o menino
vai crescendo e dividindo

a tua beleza

a tua beleza mulher
tem qualquer coisa que mata
é feito o gume da faca
cortando dentro do peito
e eu assim tão sem jeito
na condição de ferido
me entrego inteiro e perdido
de bandeja e de colher

a tua beleza mulher
chega a ser estonteante
e desse modo e doravante
se atira feito uma pedra
que aos poucos se engedro
na vidraça da janela
e nisso o que mais me ferra
é em seu caco (dividido) vidro

remanso

....................... o rio faz
meia volta
.................. e segue
.................. de novo o seu curso

máximas

a igreja é a toa
eu sou ateu
e deus nem mais existe

um anjo esquerdo
falou pra mim
que deus
sempre foi da direita

não inocento

não inocento a manhã
com seu tecido de orvalho
tão pouco incrimino o dia
com seu espaço de luz

o que faço faz jus:
que a manhã inocentada
é cumplicidade que entrava
o processo de viver

incriminar o dia
na desvalia do espaço
é como tecer o meu rastro
perante o fugir da manhã

amor antigo

... havia um rastro de luz
onde (?) hoje há escuridão...

cerração

a manhã com seu tecido
de filó todo ensopado
de orvalho neblinando
o para-brisa da vida

lembrança

a saudade é o tempo
desfazendo o tricotado

mais além

a linha da fantasia
diluída no infinito
empina um sol bonito
de amarelo tecido

e o menino cá da terra
rabiolando vontade
se embala na maravilha
e com o sol faz a partilha

desse universo encantando

a tua beleza mulher

a tua beleza mulher
é feito um campo de trigo
dourado onde me abrigo
e sacio a minha sede

a tua beleza mulher
tem qualquer coisa que mata
é pele gostosa que farta
minha gula meu desejo

a tua beleza mulher
é feito manhã clareada
caminho sem fim - louca estrada
me convidando ao passeio

a tua beleza mulher
é porto dos meus anseios
é da mina doido veio
de ouro que nunca me basta

era uma vez...

- cadê as matas
que verdejavam floridas?
. o machado cortou!

- cadê do céu o azul
que transparecia lindo?
. a fumaça tapou!

- cadê o cristalino do rio
que corria indo?
. o garimpo estancou!

- cadê o passarinho
que bonito cantava?
. a gaiola calou!

- cadê o homem
que vivia aqui?
. nem rastro deixou!

passarinho apressado

passarinho apressado
pequeno coisa de nada
cismou de cantar bonito
mas piou desafinado

apressado passarinho
de penas pouco abastado
inventou de voar alto
mas no chão foi atirado

vê se aprende passarinho
com o tempo esperar
não sejas tão afobado
que seu dia vai chegar

de tanque & tempo

minha mãe no tempo
é uma distância no tanque

enquanto nossas vidas
eram alvejadas com céu
sob o anil da infância
nossa roupas miúdas
no varal da manhã
se encharcavam de sol

minha mãe no tanque
é uma presença no tempo

o amor mudou de casa
"amar é mudar a alma de casa"
.............................. mário quintana

o amor mudou de casa
não deixou nada pra trás
nem retrato de lembrança
nem uma lerda esperança
o amor mudou de casa

o amor mudou de casa
pra nunca mais voltar
não deixou nenum bilhete
esqueceu-se do endereço
nem adeus ele acenou
o amor mudou de casa

o amor mudou de casa
foi morar noutro lugar
onde não alcança a vista
sumiu sem deixar pista
e não se pode encontrar
o amor mudou de cara

poema para o dia dos namorados

o amor não tem dia
nem hora pode esperar
ele em tudo é sem limite
é estrada por trilhar

como pode amor ter dia
se amor não tem lugar
e por mais que o limitem
elos há de arrebentar

bem dito seja o amor
ai esse gosto de amar
que se instala em cada peito
se inventando de inventar

poema erótico

a tua boca mulher
nada tem de virginal
é de um pecado mortal
que endoida a gente

os teus cabelos mulher
te caindo pelo dorso
me deixam em alvoroço
me dá tesão

vontade de passar
minhas mãos pelos teus seios
sufocar-me nesse meio
senti-los inteiros na boca

das tuas entranhas mulher
me vem um cheiro gostoso
me convidando pro gozo
pra eu ser inteiro em ti

antologia poética - 1992

antologia poética - 1992











soneto
"nem o tempo há de apagar
as digitais do meu dente
ao longo do seu corpo"
........................ wander piroli


por tanto tempo nossos corpos tão unidos
que a perde dele em tudo me embaraça
é feito dia sem sol quando se embaça
é feito noite sem lua tecendo fio

o teu corpo por demais só me sacia
que no gozo eu me perco te encontrando
e quanto mais te tenho mais vou te amando
feito fêmea parindo a sua cria

mas por certo hora virá e será dia
que do teu corpo estarei dele apartado
tal que nem braço amputado por faca fria

e no meu canto sem tecer o desencontro
já não mais te cantarei como devia
mas o meu dente no teu corpo estará cravado

a conversa qu'eu nunca tive

a conversa qu'eu nunca tive
com meu pai
ainda é no tempo
um nó na garganta

contamos nos dedos todos;
as palavras ensaiadas
as horas sempre adiadas
os olhares de estravio
os agrados dissimulados

éramos cúmplices?

ave & avião

tinha uma vez um avião
viajando pelo espaço

havia uma vez uma ave
passeando pelo céu

o que tinha de aço
a outra possuía de mel

um roncava suas dores
a outra cantava no céu

joaninha

coitada da joaninha
de catacores todinha

na palma da minha mão
no seu todo tão tadinha

quem é que salpicou de cores
essa porção miudinha

foi o arco-íris pintor
ou o pintor de arco-íris

noite escura

a lua desencantada
nem quase brilhou no céu

as estrelas coitadinhas
todas careciam de luz

o céu todo tristonho
vestiu seu manto apagado

enquanto na terra luzia
muito mais do que devia

entrepiscando todinhas
as lanternas dos vaga-lumes

tablete de sonho

o céu vestido de azul
estala nas vistas bonito
é tão intenso de cor
que mais parece um grito
das roupas das lavadeiras
alvejadas de algodão

a poesia

a poesia sempre
foi meu forte

é meu artista
é o meu norte

e isso faz muito
desde eu menino:

inventando coisas
aprontando estórias

sempre fui
de pé esquerdo

mão que me devora

no mar profundo da vida

no mar profundo da vida
o amor é peixe esperto
vê a linha engole a isca
mas do anzol nem chega perto

quem se arrisca a pescador
tem que ter muito cuidado
em remar em mar bravio
enfrentar desencontrados

porque quando menos se espera
fisgado é o amor
mas uma dúvida sempre fica
quem é que é pescado

o peixe ou o pescador

cantar bonito

eu que cantava bonito
sou trinado de trizteza
e o que brilhava bonito
é opaco com certeza

a leveza do meu gesto
é só peso de intenção
e onde havia fogo
não mais hoje existe não

o qu'eu havia aberto
em tudo virou portão
cadeado reforçado

segredos de coração
porque as chaves da vida
inda não encontro não

algumas considerações em torno do amor

o amor anda em tudo
é um doido andarilho
sempre inventando coisas
no seu saco sempre brilho

é feito fogo constante
que se alastra sem parar
com mil chaves de segredos
segredos por desvendar

o amor não tece tempo
é o reverso do começo
é uma ave toda aflita
se debatendo inteiro

nem mesmo a morte pode
o amor decepar
porque do fundo da terra
ele sempre há de vingar

por enquanto

me retardo por enquanto
nessa espera
(feito ave sem vontade)
de voar

me retenho por enquanto
no meu canto
(feito pássaro que se priva)
de cantar

me adentro por enquanto
nessa busca
(feito cego sem bengala)
pra guiar

me isolo por enquanto
em mim mesmo
(feito guia perdido)
no trilhar

por amor

por amor me esfacelo
por ele me entrego inteiro
sou boi indo pro corte
berrando feito cordeiro

por amor eu me desdobro
faço hora-extra na vida
e quanto mais me calejo
mais vou gostando da lida

por amor me desentranho
das tripas faço coração
que o gesto em sendo pouco
se vale da intenção

de retê-lo entre os braços
com tamanha exatidão
que a vontade se faz tanta
que ele escapa pelas mãos

após a tempestade

após a tempestade
sempre chega a bonança
e meu peito sem vingança
se veste de um canto livre

o pasto já se esverdeia
prometendo safra boa
e o amor hoje me soa
sem rancores sem maldades

no quintal da minha vida

no quintal da minha vida
tem fruta de todo jeito
têm borboletas bonitas
resumidas num enfeite
de serem só coloridas
com asas soltas no ar

no quintal da minha vida
jaboticabas são brilho
tinindo de serem pretas
para serem as mais belas
mordidas menino guloso
trepando no horizonte
de uma saudade sem fim

no quintal da minha vida

espio de longe

espio de longe
como quem espia o tempo
tecendo sua memória
se remoendo por dentro

a estória da minha cidade
começa por um ferida
de um certo adão coelho
com a perna em chaga viva

e como promessa cedeu
um condado de terra perdido
se o senhor por milagre
curasse ele em vida

proposta

que mais eu quero da vida
se a apropria vida me dá
esse dom de prosseguir
sem nunca pensar em parar

e vou seguindo assim
do meu jeito a caminhar
sempre procurando sempre
sem saber o que encontrar

que a procura me persegue
nesse meu sempre buscar
que a busca é minha gula
sem nunca me saciar

e quando um dia a morte
estúpida vier me chamar
mala pronta passo largo
com ela vou caminhar

por um caminho novinho
que nunca ousei nem trilhar
mas meu passo vou seguindo
nessa busca de encontrar

sábado, 18 de julho de 2009

análise poética - cidadezinha qualquer

análise poética
cidadezinha qualquer (carlos drummond de andrade)











Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Análise do poema

....... Este poema de Carlos Drummond de Andrade
(Alguma poesia - 1930) sempre despertou nossa
atenção.
....... Durante anos, trabalhamos, em sala de aula, com
esse texto e, para nossa surpresa, a cada análise feita
descobrimos a densidade poética dessa poesia.
....... Observamos que a primeira estrofe é constituída
de frases nominais (frases destituídas de verbos).
Pelo que percebemos, o autor intencionalmente, ao
fazer uso dessas frases, elimina toda ação da estrofe.
O mesmo não acontece na segunda estrofe, onde
encontramos a presença de três verbos intransitivos.
....... Na primeira estrofe o autor faz uso de sete subs-
tantivos (casas, bananeiras, mulheres, laranjeiras, pomar,
amor e cantar). Cantar, aparentemente, é a forma infini-
tiva da primeira conjugação, mas, na verdade, equivale
ao substantivo canto.
....... Mais interessante é que o autor relaciona casa entre
bananeiras. Bananeira, conotivamente, pode significar:
alimento básico da família, mercadoria que pode ser ven-
dida na feira, decoração de ambiente rural e até mesmo
pode cumprir a função de latrina. Por outro lado, o poeta
estabelece a relação de mulheres entre laranjeiras.
Laranjeiras trazem uma simbologia ampliada que podem
significar pureza, casamento (usa-se no casamento um
bouquê de flor de laranjeira), matrimônio, amor, etc.
....... A preposição entre, usada nessa estrofe, estabelece
uma relação de lugar no espaço, estreitando ainda mais
a relação desses elementos.
....... Carlos Drummond, como todo modernista da Geração
de 22, desrespeita uma regra gramátical (ausência de vír-
gula entre os termos coordenados da estrofe), para refor-
çar a unidade entre os elementos da cidadezinha qualquer.
....... Percebemos que o elemento humano mulheres está
preso entre dois versos. Visualmente, esta imagem nos
remete à condição de vida das mulheres do interior:
elas vivem em um ambiente fechado, sem direito a tomar
decisões, na condição de dona de casa. Vejamos:
....... --------------------------
....... mulheres entre laranjeiras
....... --------------------------
....... Já na estrofe que tem como referência o homem, a
estrutura se manifesta de uma maneira diferenciada, ou
seja, o homem está à frente de dois outros versos.
Isso nos leva a crer que o papel do homem na cidadezinha
qualquer é de liderança e de tomada de decisão: ambiente
externo. Vejamos:
....... Um homem vai devagar.
....... -------------------------
....... -------------------------
....... Na segunda estrofe, o autor faz uso de três verbos iguais
(vai). O verbo ir é um verbo intransitivo, destituído de obje-
tivos direto ou indireto. Compreendemos que todos os elemen-
tos da cidadezinha participam da mesma ação e da mesma mo-
notonia (o homem, o cachorro e o burro). A falta de objetivo
desses elementos é reforçado pela repetição intencional do
advérbio devagar, denotando a monotonia que envolve os
próprios.
....... Na terceira estrofe a ação intransitiva e o advérbio de
modo são novamente utilizados, para reforçar a idéia de mono-
tonia. O uso das reticências é significativo, porque amplia visual-
mente a curiosidade recatada do povo dessa cidadezinha.
Observamos que as janelas olham. Olham como? Através da
frestas das janelas. Entendemos que as frestas das janelas são as
reticências.
....... A última estrofe inicia-se com uma interjeição típicamente
mineira "Eta". Essa interjeição, expressão de um sentimento
súbito, na verdade, é o desabafo do poeta diante da monotonia
da cidadezinha.
....... A vida é besta, não por só se referir a simplicidade e tolice dessa
cidadezinha, mas também por fazer referência ao animal "besta"
por sua propriedade de ser estéril.
....... A solidão do autor, está explícita, quando faz uso do vocativo
"meu Deus". Entendemos que só Deus possa compreender seu
espanto diante dessa cidadezinha.

ensaio poético sobre mariana

ensaio poético sobre mariana











espio de longe a cidade
como quem espia o tempo
tecendo sua mémoria
se remoendo por dentro

quem chega nem percebe
(só) o coração atenta
que abre sua porta selada
enquanto o olho pressente

meu passo em tudo é cuidado
que o caminho é de dentro
coração de mariana
eu sinto batendo no peito

a esquerda desse peito
ismália sempre sonhando
da sacada da janela
as luas vai misturando

e enquanto alphonsus espia
o tempo se retratando
pra ser museu na vida
e a vida se prolongando

as mãos de aleijadinho
não são mais pra catedral
sua obra se prolonga no tempo
de uma maneira fatal

onde a vista não alcança
o coração nem mais sente
saio do curso da história
uma outra estória eu invento

e o ouvido mais enxerga
quando os sinos badalando
vou tecendo ladainhas
dos rosários sempre cantando

os homens cumprindo promessa
orações vão rezando
e fazem procissão de velas
e as torres ficam espiando

da sacada do museu
vejo ismália enlouquecendo
sua alma indo pro céu
seu corpo no mar descendo

a vida continua
além do tempo tecido
que a poesia transcende
além do passado perdido

os anjos de aleijadinho
são cinzéis do seu invento
da mão se prolongando
além da linha do tempo

sábado, 11 de julho de 2009

inventário da fome (1981)

inventário da fome (1981)
(inspirado em portinari)







eu sou esses olhos
arregalados na cara
ausência de sonho
esbugalhando faminto

eu sou essa cara
entranhada de sol
na terra doendo
cá dentro do seco

eu sou essa garganta
arreganhada de miséria
que há muito devora
empaturrada de fome

eu sou essa barriga
empapuçada de vermes
amarelado destino
parceiro da fome

eu sou essas pernas
arrastando no ralo
que mal se equilibra
nas chinelas dos ossos

eu sou essas mãos
em tudo traídas
na espera do nada
do extraviado destino

antologia poética - (1976 a 1985)

antologia poética - (1976 a 1985)






deus barbudo

um deus barbudo
carrancudo
todo senhor de si
lá do seu latifúndio largo
cheio de pigarros
tossindo grosso
me disse:
- vai beré
ser besta na vida

dos meus óculos míopes
miúdo
cá de baixo
entre os homens
descobri
que deus
apesar de tantos
estava
redondamente enganado

e eu desculpo deus
por isso

ausência de poesia

imparciais
as palavras
desafiam o poeta

indiferente
o poeta
espia as palavras

entre um e outro
nada se revela

e o tempo ponteia
no espaço em branco

um canto mudo

meus irmãos

desconhecidos
os meus irmãos são
tprtps
iguais em tudo

desfalecidos
os meus irmãos são
turvos
iguais em terra

desvalidos
os meus irmãos são
tardos
iguais no tempo

desvanecidos
os meus irmãos são
todos
iguais em tese

elegia

um solo morno e displicente
(mis do que antes devia)
espreguiça no horizonte
sua pálida vontade

uma tristeza profunda
de neblina resfriada
dói no tempo (e como)
feito faca afiada

estendida a montanha
mal sustenta o seu gesto
debruçada em terra fria
cheirando a coisa velada

e por detrás a vida
muito mal iluminada
simula um lerdo brilho
quando (in dentro) só morre

um homem vestido de branco

que seu passo livre
passeando a casa
abra longos sulcos
revolvendo a terra

que seu canto limpo
plante onde cava
semente maior
com gosto de ser

que seu gesto branco
apronte pra sempre
dentro em nosso peito
deminsão de vida

que vossa colheita
seja toda nossa
dividindo frutos
repartindo amor

palavra qu'eu espreito

a palavra qu'eu espreito
tece na boca um calado
me olha casmurra e lacrada
aprontando seu canto surdo
se vestindo de mudez

a palavra qu'eu espreito
me engana a toda hora
com seus dois gumes de faca
me espiando de fora

a palavra qu'eu espreito
é seca nunca transborda
só me ferindo por dentro
me convidando pra fora

a palavra qu'eu espreito
não se vexa nem com tapas
e se atarraca à garganta
com seu silêncio e pirraça

houve um tempo

onde o tempo não habita
com ponteiro demarcado
bem pra lá do outro lado
esquerdo do coração
houve uma vez um menino

onde o espaço não se fita
com quintal esverdeado
lá pelas bandas da brenha
do peito ensimesmado
houve uma vez uma casa

onde o tempo não se fita
e o espaço não habita
houve uma vez um menino
houve uma vez uma casa
e essa saudade que finca

liberdade

se o penhor dessa LIBERDADE
conseguimos
inda que tardia

entre o sangue nosso
derramado
trucidado vai raiando o DIA

canto de libertação

que o terno não seja
o limite do seu corpo
e nem que haja gravata
sufocando o seu pescoço

que a viseira não seja
a dimensão dos seus olhos
e nem que haja olheiras
escavacando a sua cara

que a mordaça não seja
rolho pra seu sufoco
e nem que haja palavras
entrelaçando o seu mofo

que as mãos não sejam
a gula do seu possuir
e nem que haja nos dedos
suas contas a fluir

que os sapatos não sejam
o seu programado caminho
e nem que haja nos passos
rastros traindo seus pés

que os braços não sejam
suas porradas no vento
e nem que haja nos gestos
seu vício de bater ponto

e que você não seja
papel fedendo a arquivo
e nem que haja na vida
o seu destino de rato

canto de fé

nenhum fuzil
reprime o meu canto

nenhuma mordaça
cala a minha voz

nenhum carrasco
me apronta medo

nenhuma viseira
veda os meus olhos

nenhum dinheiro
me compra a verdade

nenhuma farsa
me dobra a certeza

de que um sol mais largo
está pór brotar

a respeito de um determinado tempo

o tempo escoado
não é um quarto apagado
de luz tão carente
com gotas de vela

o tempo escoado
não se conta nos dedos
e nem se tranca em baú
o que se fez de memória

o tempo escoado
não são águas perdidas
que cumpriram seu destino
de moinho rodado

o tempo escoado
não são rastros tecidos
deixados de banda
numa estrada qualquer

o tempo escoado
não é um canto traído
atarracado à garganta
ruminando nudez

fogo sob cinzas

e se de repente
nos olhos embotados
um brilho se fizesse
na cara todo estampado

e se de repente
no passo extraviado
um destino se traçasse
inverso ao programado

e se de repente
no braço injustiçado
o punho alevantasse
seu gesto de desforra

e se de repente
na boca trucidada
a voz entoasse
o canto sempre esperado

e se de repente
do povo viesse à tona
o indigesto engolido
após estes tantos anos

e se de repente

surdina lilás

já fui moça de família
hoje farsa de bandido
e de coração partido
dou meu corpo pra quem quer
já sonhei hoje me cala
sou retalho de mulher
sou a puta dos tostões
a mais fácil mulher
égua estreita pasto largo
nas camas dos rendevouz
e todinha me amofino
na surdina do abajour

trajetória traída

eu sou o dono da fala
que por enquanto se cala
espreitando a sua vez

eu sou a terra cansada
pelos meus braços trepada
parindo frutos

eu sou o posseiro da praça
sobrevivendo à desgraça
do seu poder me engolindo

eu sou essa mão alargada
digital em pátria amada
construtor dessa nação

eu sou na força do braço
o timão de toda raça
eu sou o povo na história

um soneto bastardo

tanta vergonha em mim
me vem da origem que sou
certificado em nascimento
e de certidão parido

sou o bastardo da raça
filho da fome e do medo
mamando no esgoto da história

sou o comparsa da trama
o da boca sempre calada
a cadela do meu patrão

sempre abanando o rabo
pras porradas que um dia
me fizeram brasileiro

nosso tempo

nosso tempo
é o de dar nó
em goteira
matar cachorro
a grito
pernilongo
a beliscão

estamos num mato
sem cachorro
perdidos
que nem cego
em tiroteio

o amor
é um chute no saco

ofício de cachorro - profissão poeta

fazer poesia
é andar de quatro
na vida
farejando o resto das palavras

é dar mijadas
no poste do tempo

é engatar o rabo
na cadela da cachorra

é dar latidos de homem
neste mundo cão

na ordem do dia

perdi a armadura
a vocação pra herói
e o cavalo qu'eu nunca tive
me deixou a pé

catapultas me ferem
perante o dia
à noite cantochões
me esfarrapeiam a sorte

não trago de quixote
a ilusão diária
nem panchovilo
porções de açoite

estou (só) neste país
exposto à bigorna
oficialmente na ordem do dia

aleijadinho

transfugado de deus
o homem aqui na terra
peca por ser humano

a insana dor doída
na carne que perece
profundamente cava
na pedra endurecida
os dedos do céu

e ao relento
como um cão abandonado
um cinzel esquartejado
misturando deus e diabo
fere o tempo

em tempo de adeus

a vida não pára
e o tempo se esgota
numa exatidão infinita

o que se passa
no meu coração
não sei
a mim me basta
a ignorância enxuta
de eu estar sozinho
tracando rumos

passos plurais
sou inteiro
em cada gesto
em cada fala

e me entrego em luto
(pra você inteiro)
perante o havido

recado

maria
este país
num tá nada legal
vamos pedir a conta
e sair deste boteco

há sempre

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder olhar
em cada dobra de esquina
em cada resto de lar

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder tomar
em cada corpo debruço
em cada herói-calabar

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder gritar
em cada língua torcida
castrada no seu falar

hé sempre sangue de sobra
pra gente poder lutar
nessa sangueira danada
chamada de nosso país

me perco na geografia dos fuzis

baionetas soturnas
calam vozes
limitam vidas

aparentemente
não há dor
num país de out-doors

enquanto isso
o povo come calado
o pão que o diabo
amassou com o rabo

meu silêncio

meu silêncio
cheira a sangue

não vou reter o gesto
limitar a fala

há uma vala vazia
espreitando corpo

e o silêncio me dói
feito fuzil
num corpo amigo

na ausência da palavra

o poema por (se) fazer
e que não tem sentido
é um resto cansado da noite
circulando intenso na vida

o poema por (se) fazer
e que não foi feito
é um sentimento inexato
no ato im-próprio de ser

o poema por (se) fazer
e que não foi possuído
é um papel todo em branco
de palavras ausentes

jogando limpo

(eu comigo)
a consciência exata
do meu limite:

a palavra nunca dita
a vida nunca doada
e uma vontade incrível
de fazer de conta

facalha

faca fere feito folha fina
fere feito faca fina folha
fina faca folha feito fere
folha fina fere faca feito
feito folha fina fere faca

sábado, 4 de julho de 2009

na retina dos meus olhos - 2009

na retina dos meus olhos - 2009








na retina dos meus olhos
você pode encontrar
coisas que são da terra
coisas que são do mar

nas coisas que são da terra
você pode até tocar:
um canteiro de açucena
um cantinho de amar

nas coisas que são do mar
você pode velejar
um golfinho encantado
e uma sereia do mar

na retina dos meus olhos
você pode se encantar
com as coisas que são do fogo
com coisas que são do ar

com as coisas que são do fogo
você pode se afagar
com um gesto todo manso
e com o calor do gostar

com as coisas do ar
você pode flutuar
com um cheiro de brisa macia
no seu rosto a resvalar

na retina dos meus olhos
tenho muito pra contar
das coisas que são da terra
das coisas que são do mar

na retina dos meus olhos
tenho muito pra mostrar
das coisas que são do fogo
das coisas que são do ar

na retina dos meus olhos
você vai me encontrar
tecendo o fio do amor
costurando o tecido do amar

segunda-feira, 4 de maio de 2009

romance mineiro

romance mineiro (poema) - 1986
para zé luquinha e dona dina (meus pais) - in memoriam



meu pai
já foi tropeiro
e minha mãe
cantadeira

debaixo duma torneira
muita roupa já lavou

meu pai
já foi seleiro
e minha mãe
arrumava

sobre as tábuas da casa
varria e sempre passava

meu pai
já foi negociante
e minha mãe
(só) na cozinha

com as vasilhas na mão
gostoso nos temperava

meu pai
separou de cama
minha mãe
obedeceu

durante anos a fio
tudo isso aconteceu

um dia
minha mãe cansada
juntou trouxa
foi pro céu

meu pai
de saudade doído
sem aquilo
que era seu

forjou na bigorna
passagem
e foi morar
lá também

acerto de contas

acerto de contas (poema) - 1988


esse amor me é tão caro
nem mais sei o seu preço
me assalta o coração
me vira pelo avesso

o seu valor é tanto
sentimento protestado
que me encontro perdido
de alma hipotecado

como saldar não sei
essa conta do passado
se em juras sobre juros
(só) me vejo penhorado


análise estrutural do poema - a estrutura da diferença


quantidade .............X.............qualidade


1. tão caro .................................... (me é)
2. seu preço ................................. (nem mais sei)?
3. me assalta ............................... (o coração)
4. me vira .................................... (pelo avesso)


5. o seu valor tanto ..................... (é)
6. protestado ............................... (sentimento)
7.que me encontro ..................... (perdido)
8. hipotecado ............................... (de alma)


9. como saldar ............................. (não sei)?
10. essa conta .............................. (do passado)
11. se em juros ............................. (sobre juras)
12. penhorado .............................. (..(só) me encontro)


estudo vocabular do quantitativo

. caro - adj. de preço elevado; de preço excedente ao valor real; que custa sacrifícios ou grandes despesas; X que é tido em grande valor ou estima

. preço - s.m. custo da unidade de coisa vendível; valor pecuniário de um objeto; X importância moral; merecimento; estimação

. assalta (v. assaltar) - v.t . atacar de repente; investir com ímpeto; surpreender

. vira (v. virar) - v.t. mudar de um lado para outro a posição ou a direção de; pôr do avesso; X estar voltado; transformar; reagir

. saldar - v.t. pagar o saldo; ajustar; ficar quite; veirificar ou liquidar contas

. conta - s.f. operação aritmética; estado de créditos e débitos ou de receita e despesa

. juros - rendimento de dinheiro emprestado; com obediência às disposições legais, que são acrescidos à dívida, caso ela não seja liquidada no prazo previsto

. penhorado - (penhorar) v.t. apreender judicialmente; dar em garantia X tornar agradecido

. protestado - (protesto) s.m. ato jurídico pelo qual se declara responsável por todas as despesas e prejuízos aquele que devia pagar uma letra de câmbio ou documento análogo, e não a pagou no vencimento

. valor - s.m qualidade do que tem força; valentia; coragem; esforço; mérito X preço; préstimo; papel representativo de dinheiro

. hipotecado (hipoteca) - sujeição de bens imóveis ao pagamento de uma dívida; dívida que resulta dessa sujeição

. encontro - s.m. conjuntura; embate; choque




a casa

a casa (por dentro e por fora) - 1990



quem vê uma casa por fora
ignora o que há por dentro
as tábuas-corridas da sala
conduzindo passos lentos
de quem cansado da vida
se move pelo tormento
de esperar pela morte
pra por fim no sofrimento

desconhece o estreito quarto
confinando pensamentos
de um homem estregue à sorte
devorado pelo tempo
o corpo carente de banho
de luz o quarto sedento
e a vontade de vida
menos que um filamento

não vê no porta-retrato
à esquerda do sofrimento
a foto antiga da amada
amor em tudo mais bento
que aos poucos devorando
no peito fez-se em rebento
feito uma chaga viva
que estraçalha por dentro

quem vê uma casa por fora
não percebe a vida de dentro

............................ Clique na imagem para vê-la ampliada

o caso do vestido

o caso do vestido
(inspirado num poema homônimo de carlos drummond) - 2000



na sala vazia
há um vestido
e pelo sabido
e pelo contado
este vestido antigo
traz no seu tecido
restos de um fio:
amor mal traçado

uma certa moça
donzela calada
de pudor contido
riso recatado
pouco sabia
das tramas da vida
menos sabia ainda
do amor tramado

sem mais nem menos
o amor chegou
com olhos verdes
bem apessoado
na pele de jambo
o sorriso limpo
desenhava nítido
o intencionado

em pouco tempo
sem muito esforço
cheio de trejeitos
de bote já armado
a cobra deu seu pulo
certo na mordida
que a ferida da entrega
e cega pelo pecado

e foram tantas noites
de suspiros e juras
tanto corpo nu
tanto suor doado
que a entrega peca
não tanto pela gula
mas pela loucura
do desatinado

entre mil promessas
arma-se a estória
do vestido branco
na sala vazia
no adro da igreja
o tempo da espera
é nó na garganta
festa sem valia

na sala vazia
o vestido persiste
feito um fantasma
do corpo apartado
que a morte assim
presente na vida
tece a sua lida
e não manda recado