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sábado, 25 de julho de 2009

poemas avulsos - 1996 a 2000

poemas avulsos - 1996 a 2000






é no teu corpo mulher

é no teu corpo mulher
que me entrego cativo
e aos poucos vou morrendo
nessa entrega em que vivo

é no teu corpo mulher
que aos poucos me refaço
é nele que me liberto
estando preso no laço

é no teu corpo mulher
que me encontro achado
mesmo me sabendo perdido
por quanto que tenho te amado

o amor

o amor quando é intenso
não respeita calendário
não anda em linha reta
sempre rompe itinerário

segunda vira domingo
quarta se transforma em sábado
qualquer canto é um motel
este amor sempre é sagrado

bem dito seja o amor
quando é assim assado
rompre correntes alça vôo
e se espalha pelos lados

roca do tempo

o tempo com seu fio invísivel
aos poucos vai tecendo o seu tecido
e cava no rosto sulcos profundos
onde antes só liso se fazia

por capricho o tempo arma nos cabelos
uma alvura de lã tão raleada
e na fronte apronta uma clareira
onde antes só adornos se instalavam

no peito crava uma secura
uma indiferença como nunca se esperava
e nos olhos o opaco abafa o brilho
que o tempo só por si se alinhava

saudade

a saudade bate forte
quando é feita de amor
é um nó na garganta
arrochando mais a dor

é um oásis no deserto
seco profundo sem cor
rodeado de areia
onde nunca nasce flor

as nuvens

as nuvens no céu brincando
são gostosas de se ver
parecem algodão doce
brancuras de se comer
barulhinhos tilintando
no ouvido do amanhecer

poética

a poesia é minha estrela
e guia dos meus caminhos

na cerveja me abrando
tiro arestas dos espinhos

no cigarro me disfarço
suspiro bem de mansinho

e na mulher me entrego
sem receio de estar vivo

para que ninguém a quisesse
(inspirado no conto de marina colasanti)

esquecida dos seus anseios
a mulher se amofinou
virousombra entre móveis
feito chama se apagou

ela que era tão linda
que de bela se fartou
agora um vulto perdido
farrapos do que sobrou

e o marido arrependido
sem ter o que sempre podou
carrega nas mãos vazias
memória do que tosqueou

uma breve estória da literatura II

o mal se entrelaça no bem
o sagrado ao profano
ou se desgraça no céu
ou se liberta mundano

a natureza como sempre
repete o velho ditado
se me perco na cidade
no campo encontro traçado

tanto rebanho tão tanto
pastoras pra tantos agrados
que o simples adverte
a vida tem seu cajado

contra o clero e a realeza
com toda força lutei
por liberdade e igualdade
com fraternidade sonhei

mas meu sonho durou pouco
eu que tanto acreditava
pois os burgueses me usaram
pra aquilo que tanto brigaram

e não demorou quase nada
a máquina engoliu o malho
e a exploração das indústrias
minha força de trabalho

infância

a poeira da rua
o pé na bola
o quintal do vizinho
a goiaba roubada
a água do rio
o corpo molhado
papagaio no vento
liberdade tramada

um fio de sonho
lembrança tecida
passado de infância
lamento perdido
saudade no peito
soluço pingado
menino no tempo
a alma partida

um espaço

havia uma vez um espaço
em tudo um tanto vazio
feito um rio sem água
feito uma estrela sem brilho

era duma tristeza tão tanta
seco de lágrimas sequinho
que não havia espaço pra flores
tão pouco para espinhos

mas um dia não sei quando
tudo se transformou
foii quando assim de repente
uma criança chegou

e vendo aquele espaço
vazio tão só sem igual
assoviou uma canção
semelhante a um pardal

e o espaço vazio
se encheu de alegria
feito um tecido de amor
que aos poucos lento se fia

globalização

quando chove
no meu quintal
o mundo molha
todinho

mas eu fico
sem saber
e nisso me perco
todinho

por que será
que o real
perto do dólar
é pouquinho

uma breve estória da literatura III

ela no pedestal
e o poeta cá em baixo
ela toda etérea
e o bardo pobre capacho

ele partiu pra bem longe
e ela sofrendo calada
seu retorno é de incerteza
e ela de corpo abrasado

o mundo que era pequeno
aos poucos foi alargado
e o fio do destino
pelo homem foi traçado

e o que era submisso
rompeu novos horizontes
atravessou arco-íris
foi beber em novas fontes

mas o tempo de uma vida
já é bem delimitado
unir deus e o diabo
se torna mais complicado

a morte no seu cavalo

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
anda pelos quatro ventos
sem ter pressa sem ter hora

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
é d'uma gula implacável
quanto mais menos se farta

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
galopando pela vida
sem aviso logo empaca

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
sem escolha na garupa
qualquer um logo arrebata

a morte no seu cavalo
com seu chicote de prata
............................................
............................................

amor amor

ela na torres dos sonhos
forma etérea inventada
e ele um bardo coitado
ruminando seus anseios

mulher nunca houve igual
nem amor tão relevante
que o amor assim sendo
se figura mais prestante

tanto amor tanto por nada
que a amada nem existe
mas num coração dedicado
amor e amada persistem

lucrécia
(uma breve estória sobre uma dama romana)

tão dedicada era a dama ao seu amado
e só por lúcio fiava o seu amor
feito um tecido que aos poucos se alinhava
que nem botão treinando pra ser flor

tal galhardia em tal dama findaria
quando por tarquínio foi violentada
rompeu-se o tecido que então tecia
findou-se a rosa sem ter desabrochado

na casa romana agora é só luto
o tecido reveste-se de mortalha
e a rosa podada agora já sem pétala
enterra no próprio peito a doce espada

haicai inocente

anjos pelados
no varal do arco-íris
alvejam asas

cantar de amigo

distância tanto distante
estando ela do amado
tricota uma volta absurda
com o fio do esperado

seu corpo na noite tremido
tendo o vazio de lado
tece uma lerda esperança
um amor de forma vago

e entre um gozo e outro
pelo tempo acumulado
o travesseiro vira amante
e a saudade pecado

algumas considerações em torno de uma foto

debruçado na sacada da história
paraliso o ponteiro das horas
e teço a geometria do antigo
feito um burro de carraça
carregando no seu dorso
carga de outras memórias

aos poucos a minha saudade
vai erguendo um casarão
onde "a vida de minas"
tijolo por adornos
tece a sua arquitetura
pra ser patrimônio da vida

sou um vulto entre alameda
sem pressa de perder o bonde
porque os trilhos entre pedras
(indiferentes ao bueiro do tempo)
me dão uma certeza nítida
de que a vida permanece
mesmo que seja na foto

falar de amor

não me venham
falar de amor
qu'eu estou
de saco cheio
de tanto amar
de tanto entregar
de tanto sofrer

não me venham
falar de amor
qu'eu estou
de peito vazio
de tanto desamor
de tanto perder
de tanto roer

assim & assado

o mais inteiro
é quem se divide

o que mais tem
é o que mais reparte

o que mais briga
é o melhor amigo

quem planta vento
espanta tempestade

o mais partido
é quem se preserva

o que mais doa
é o que mais retém

o que mais passa
a mão na cabeça

honra seja feita
é o pior compadre

entre sentimentos

entre um sentimento e outro
estando atordoada
a mulher e seus desejos
são lampejos de saudade

o macho deixou sua marca
não na superfície da pele
mas na alma dolorida
que muito mais profundo fere

e ela que vivia tranquila
segura no seu calado
aventurou-se no amor
e por isso anda lesada

a respeito de uma grade

a grade da sacada me agrada
é como se a brisa do tempo
soprasse na minha memória
antigas lembranças

que donzela esteve (aqui) debruçada
vestida e vistosa aguardando
(quem sabe) o namorado
ou que senhora (aqui) esteve
(já cumprida as horas)
aguardando a morte

e os ferros entrelaçados da grade
(apesar do silêncio contido)
revelam coisas antigas:
suspiros perdidos no vento
saudades desconhecidas

em vão a tinta fresca
da grade recém-pintada
tenta sufocar o passado

ausência do amor I

se alguém souber do amor
que me indique o caminho
pra encontrar seja onde for
com ele só um pouquinho

quem souber seu paradeiro
que me dê seu endereço
qu'eu quero ser o primeiro
a sentir o seu apreço

se alguém me informar
será bem gratificado
já vasculhei céu e mar
sem ter nunca encontrado

o amor saiu sem rumo
nem deixou seu endereço
e sua ausência me dói
na garganta pelo avesso

ausência do amor II

a ausência do amor
é uma agulha sem fio
costurando no peito
um tecido tão vazio

a ausência do amor
é um barco sem timão
perdido em pleno mar
naufragado coração

a ausência do amor
é osso duro de doer
é cachorro sempre latindo
sem caninos pra morder

a ausência do amor
é um deserto sem fim
onde dunas se acumulam
e jogam areia sobre mim

determinação

feito um cachorro
(perdido)
viro a lata desse mundo
mesmo sabendo
que é duro esse ofício
(de viver)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

poemas avulsos - 1993 a 1995

poemas avulsos - 1993 a 1995












quem é que?

quem é que tece o dia
se o sol não sabe tricô
e esse céu manta larga
azul quente de calor?

quem é que tinge a noite
se a lua não é pintor
e essa rotunda estrelada
brilhante capote de amor?

canção do exílio

oh! qu'eu não tenho saudade
da minha terra de agora
prefiro a outra de outrora:
onde tinha carambola
a gente jogava bola
e no rio podia nadar

ah! qu'eu não tenho saudade
dessa terra de hoje em dia
prefiro a outra que havia:
onde tinha fantasia
a gente inventava o dia
e menino podia sonhar

ai! que sou todo saudade

inverno

o vento vinha ventando
cantarolando assovio
e soprava tanto frio
que o rio de calafrio
se estreitou num corredor

atrás da montanha o sol
tadinho batendo seus dentes
se enrolava em raios quentes
que nem tal um indigente
se envolve num cobertor

meu pai

meu pai me acorda na noite
batendo na sua bigorna
fundindo metal no cadinho
tangendo na minha memória

meu pai me acorda na noite
tecendo um tempo sem fio
de quando eu era menino
vivendo as coisas qu'eu era

meu pai me acorda na noite
e eu fico me dividindo
entre o presente e o passado
a vida passando a limpo

poema para uma mulher aparentemente magra

a tua beleza mulher
se faz em carne esculpida
em tudo sob medida
sem exagero qualquer

és mulher exatamente
como deverias ser:
pelo de jambo macia
pequenos seios dourados

e esse seu jeito de fêmea
que me deixa transtornado

já faz tempo

já faz tempo
um menino atirado
mudou o passo do trato
arrancou o seu sapato
e saiu descalço no mundo

não faz muito
um homem ousado
se vestiu de menino
e saiu sem destino
pelo caminho tramado

não se faz
um ousado menino
nem um homem atirado
que dão banana pra tudo
e se inventa

sozinhos

filosofia

saber é sabor
sabor é saber

tia miquita
(na sua simplicidade)
fazia isso sempre
na palma da mão

provando as pessoas
espiando as panelas

se nego

se nego aquilo em que me retrato
no quem me retrato em tudo eu me vejo
sou feito cego carente de luz
sou luz apagada acendendo cego

o meu desejo se desfaz em querer
e quando tenho tudo eu nego
sou chama apagada rescendendo fogo
sou fogo aceso apagando velas

o tempo

o tempo com o seu fio
vai fiando o seu tecido
de lembranças colorindo
o menino qu'eu era

já não era sem tempo
que o tempo tricotando
meus cabelos vai pintando
de paina no travesseiro

meu thiago já é moço
aos poucos o menino
vai crescendo e dividindo

a tua beleza

a tua beleza mulher
tem qualquer coisa que mata
é feito o gume da faca
cortando dentro do peito
e eu assim tão sem jeito
na condição de ferido
me entrego inteiro e perdido
de bandeja e de colher

a tua beleza mulher
chega a ser estonteante
e desse modo e doravante
se atira feito uma pedra
que aos poucos se engedro
na vidraça da janela
e nisso o que mais me ferra
é em seu caco (dividido) vidro

remanso

....................... o rio faz
meia volta
.................. e segue
.................. de novo o seu curso

máximas

a igreja é a toa
eu sou ateu
e deus nem mais existe

um anjo esquerdo
falou pra mim
que deus
sempre foi da direita

não inocento

não inocento a manhã
com seu tecido de orvalho
tão pouco incrimino o dia
com seu espaço de luz

o que faço faz jus:
que a manhã inocentada
é cumplicidade que entrava
o processo de viver

incriminar o dia
na desvalia do espaço
é como tecer o meu rastro
perante o fugir da manhã

amor antigo

... havia um rastro de luz
onde (?) hoje há escuridão...

cerração

a manhã com seu tecido
de filó todo ensopado
de orvalho neblinando
o para-brisa da vida

lembrança

a saudade é o tempo
desfazendo o tricotado

mais além

a linha da fantasia
diluída no infinito
empina um sol bonito
de amarelo tecido

e o menino cá da terra
rabiolando vontade
se embala na maravilha
e com o sol faz a partilha

desse universo encantando

a tua beleza mulher

a tua beleza mulher
é feito um campo de trigo
dourado onde me abrigo
e sacio a minha sede

a tua beleza mulher
tem qualquer coisa que mata
é pele gostosa que farta
minha gula meu desejo

a tua beleza mulher
é feito manhã clareada
caminho sem fim - louca estrada
me convidando ao passeio

a tua beleza mulher
é porto dos meus anseios
é da mina doido veio
de ouro que nunca me basta

era uma vez...

- cadê as matas
que verdejavam floridas?
. o machado cortou!

- cadê do céu o azul
que transparecia lindo?
. a fumaça tapou!

- cadê o cristalino do rio
que corria indo?
. o garimpo estancou!

- cadê o passarinho
que bonito cantava?
. a gaiola calou!

- cadê o homem
que vivia aqui?
. nem rastro deixou!

passarinho apressado

passarinho apressado
pequeno coisa de nada
cismou de cantar bonito
mas piou desafinado

apressado passarinho
de penas pouco abastado
inventou de voar alto
mas no chão foi atirado

vê se aprende passarinho
com o tempo esperar
não sejas tão afobado
que seu dia vai chegar

de tanque & tempo

minha mãe no tempo
é uma distância no tanque

enquanto nossas vidas
eram alvejadas com céu
sob o anil da infância
nossa roupas miúdas
no varal da manhã
se encharcavam de sol

minha mãe no tanque
é uma presença no tempo

o amor mudou de casa
"amar é mudar a alma de casa"
.............................. mário quintana

o amor mudou de casa
não deixou nada pra trás
nem retrato de lembrança
nem uma lerda esperança
o amor mudou de casa

o amor mudou de casa
pra nunca mais voltar
não deixou nenum bilhete
esqueceu-se do endereço
nem adeus ele acenou
o amor mudou de casa

o amor mudou de casa
foi morar noutro lugar
onde não alcança a vista
sumiu sem deixar pista
e não se pode encontrar
o amor mudou de cara

poema para o dia dos namorados

o amor não tem dia
nem hora pode esperar
ele em tudo é sem limite
é estrada por trilhar

como pode amor ter dia
se amor não tem lugar
e por mais que o limitem
elos há de arrebentar

bem dito seja o amor
ai esse gosto de amar
que se instala em cada peito
se inventando de inventar

poema erótico

a tua boca mulher
nada tem de virginal
é de um pecado mortal
que endoida a gente

os teus cabelos mulher
te caindo pelo dorso
me deixam em alvoroço
me dá tesão

vontade de passar
minhas mãos pelos teus seios
sufocar-me nesse meio
senti-los inteiros na boca

das tuas entranhas mulher
me vem um cheiro gostoso
me convidando pro gozo
pra eu ser inteiro em ti

quarta-feira, 22 de julho de 2009

antologia poética - 1990

antologia poética - 1990







primeiro movimento

era uma vez um papel
triste no seu estar
mais que cansado dali
de só escrito ficar

era uma vez um menino
triste no seu pensar
mais que cansado da lida
de só tentando inventar

no meio de outros papéis
papel não tinha lugar
seu sonho era mais além
além de letras cuidar

no meio de outros meninos
menino não tinha lugar
seu sonho era mais além
alé de só TV espiar

de um lado um triste papel
tristeza: menino de lá
era uma tantão de tristeza
que tristeza formou par

marchar cabe aos soldados

marchar cabe aos soldados
eu quero mais é brincar
se eles andam enfileirados
quero mais me debandar

se os clarins estão vibrando
eu quero mais é cantar
uma linda melodia
que não seja - tarará

minha pátria é mais além
nunca cabe em bandeira
minha pátria é o meu povo
essa gente brasileira

mais que tudo

mais que tudo
nessa vida importa
o ardor
vela propagada
inflada de vento
mesmo depedrada
agarrada ao mastro
dessa nave nada

mais que tudo
nessa lida implica
o amor
timão da estrada
norteando o rumo
nesse mar de nada
de quem constante busca
a coisa desejada

testemunho cristão

DeuS é
uma coisa muito
IMPORTANTE
por demais
IMPORTANTÍSSIMO

(- ser deus deve ser um saco!)


política brasileira

depois que
domingos jorge
"o velho"
cortou
a cabeça
de zumbi
o povo brasileiro
anda sem memória

vazio

o amor chegou
em meu coração
não
há espaço pra nada

essa mulher

essa mulher é linda
mais bonito inda é seu corpo
onde atraco barco
sedente carente de porto

essa mulher é divina
mais sublime inda é seu rosto
onde passeio meus olhos
e me esqueço do que sofro

essa mulher é perfeita
mais bem feito inda é seu peito
onde sacio minha sede
e me esfrego sem jeito

essa mulher é formosa
mais que tudo é o seu ventre
onde me amarro todinho
pra gula do meu contento

a estrelinha
releitura do poema de martins d'alvarez

o céu pontilhado de estrelas
parece peneira dourada
sacudindo na noite o brilho
do meu sonho encantado

as estrelas num pisca pisca
o tempo todo piscando
no céu são vaga-lumes
lumes-vaga iluminando

o meu encanto de menino
o tempo todo inventando
de estar junto com as mesmas
igual em brilho e tamanho

destino

desde menino
eu carrego comigo
essa mania de
quebrar relógios

insônia

dependurado na parede
o relógio lá de casa
tinha sempre a mania
de me acordar de madrugada
pra eu espiar o tempo

a nova canção dos tamanquinhos

o tamanco anda cansado
de só fazer troc... troc...
troc... troc... troc...
se inventou o sapato
pra dançar um fox-trot...
fox... trot... fox... troc...

pelo salão encerado da noite
tamanco não quer parar
desliza feito uma pena
foxtrotando o luar
feito criança que brinca
e que não para de sonhar

canto bonito

eu armo um canto bonito
pra alegrar toda gente
que vive de modo indigente
carente de algo na vida

eu armo um canto bonito
todo denso de intenção
todo encharcado de fé
perante a ordem do dia

eu armo um canto bonito
feito um grito retumbado
que ecoe pelos lados
desse meu pobre país

eu armo um canto bonito
anseio de meu desejo
em tudo aquilo que vejo
escoando dádiva-mão

eu armo um canto bonito
feito de punho abrandado
que este é meu canto de agrado
que este é meu canto bonito

em tempo de adeus

"por mares nunca DANTEs navegado
em seu corpo um dia me atraquei
e fiquei parado sem prosseguir viagem
por mares outros com que sempre sonhei

a vela do meu sonho se apagando
por muito tempo eu quase nem notei
me fiz triste perante o mar da vida
e nesse mar eu quase me afoguei

mas como todo marinheiro por destino
traz tatuado no peito o que não sei
estou partido agora sem rumo certo

que a vela do meu barco eu inflarei
pois a poesia é meu vento forte
e que aportado nunca mais serei

o sol amanheceu mais cedo

o sol amanheceu mais cedo
e pôs olhos na janela
com ares de apaixonado
pra espiar mais de perto
todo nu o corpo dela

e enquanto ela dormia
um vento todo assanhado
soprou bem de mansinho
tocou nela com cuidado

até mesmo os passarinhos
com desculpa de cantar
se instalaram na janela
também querendo espiar

a roseira despeitada
todinha se aprontou
passou orvalho na cara
mas ninguém ligou

que a beleza era tanta
do outro lado da janela
enquanto maria dormia
e sonhava o sonho dela

de pai pra filho

de pai pra filho
o meu canto se alastra
pela força da garganta
pelo sangue dessa raça

de pai pra filho
o meu canto é de intenção
solto a voz pelo espaço
me alargo de coração

de pai pra filho
venho de um outro tempo
da chibata me cortando
me machucando por dentro

de pai pra filho
no eito eu já pastei
mas reisti na história
muito sangue derramei

de pai pra filho
eu sou calo dessa mão
sou canto livre da raça
batuque de coração

de pai pra filho
pela história caminhando
eu traço a liberdade
do meu canto avançando

essa gula

essa gula de amor
me deixa de peito vazio
é tanta mulher pra amar
mas nenhuma me sacia

cada qual com seu mistério
naquilo que vivencio
o corpo afrontanto a alma
mas de intenção arredio

e nessa busca incessante
me invento no destino
me torno um mar ressecado
doido a espera de um rio

essa força

essa força que me move de repente
e que me atira pelo gosto de cantar
me faz indo seguindo pela vida
feito um rio procurando o mar

essa chama me queima de repente
e que me acende o desejo de amar
me faz fogueira em tudo labareda
feito um incêndio devorando o ar

esse destino de homem que transcende
e que me inpõe o desejo de pensar
me faz humano entre os humanos
porque a vida não se pode negar

lembrança antiga

esse gosto de goiaba
qu'eu carrego na garganta
me cheira a fruta roubada
de quando eu era criança
lá no quintal do vizinho

no quintal

no quintal do meu passado
de muitos anos atrás
eu revejo um menino
que nunca se satisfaz
sempre inventando coisas
com a gula de encontrar
um não sei quê perseguido
que rolava pelo ar
feito um papagaio aceso
com sede de voar
pelo céu da minha infância
que não consigo encontrar
inda perdido de vista

o que tenho

que tenho eu de meu
senão essa saudade
que nunca me abandona

que tenho eu de meu
senão essa procura
que nunca me deixa

que tenho eu de meu
senão esse nó de angústia
atrelado na garganta

que tenho eu de meu
senão esse vazio
que me enche fundo

que tenho eu de meu
senão esse menino
que nunca me deixa quieto

que tenho eu de meu
senão essa vontade
que me persegue inteiro

de tanto procurar

que de tanto procurar
um dia acabo encontrando
aquilo que por tanto ando
na ânsia de encontrar
e depois de encontrado
vou seguir outro caminho
que sempre foi meu destino
nunca ficar parado
que o encontro se prolonga
em outro novo achado
que depois de saciado
carece de nova procura

qualquer dia

qualquer dia desses
assim sem mais nem menos
um oficial de justiça
nos entrega um mandato
pra gente esvaziar
o nosso coração

e por incrível que pareça
a gente vai ter que cumprir

sinais do tempo
"uma nação que negligencia as percepções de seus
artistas entra em declínio. depois de um certo tempo,
ele cessa de agir e apenas sobrevive."
............................................................................. ezra pound

estamos só
num país cheio de propaganda
estamos de bamba

pisando
num chão sem céu
comendo pó de asfalto

estamos só
num país cheio de propaganda
sem nome e sem personalidade

como

como
brigar pelo ganho
(se tacanho)
eu me encontro
(no canto)
perdido

em algum lugar do passado

em algum lugar do passado
um menino deve estar
andando pela casa
correndo pelo quintal
trepando nas árvores
ludibriando o tempo

em algum lugar do passado
houve uma vez um menino

mulher

teu corpo é mais que um corpo
é beleza em tudo depravado
por isso dele me torno escravo
e escravizado nele me norteio

mais que tua boca os teus seios
com a ponta do bico em rosado
são montanhas onde escalo o dia
na busca insana de apaixonado

as tuas coxas me convém lindas
pra no prazer eu ser sufocado
quando me adentro em teu corpo inteiro
e me encontro no gozo sagrado

onde amarrar

onde amarrar a minha égua
se o cabresto do amor
abandonado
no porão
do passado
deixei

(eu pélo o porco é pelo pêlo)

como desarmar a minha mágoa
se o gatilho da ferida
atracado
no peito
do presente
atei

sábado, 18 de julho de 2009

análise poética - cidadezinha qualquer

análise poética
cidadezinha qualquer (carlos drummond de andrade)











Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Análise do poema

....... Este poema de Carlos Drummond de Andrade
(Alguma poesia - 1930) sempre despertou nossa
atenção.
....... Durante anos, trabalhamos, em sala de aula, com
esse texto e, para nossa surpresa, a cada análise feita
descobrimos a densidade poética dessa poesia.
....... Observamos que a primeira estrofe é constituída
de frases nominais (frases destituídas de verbos).
Pelo que percebemos, o autor intencionalmente, ao
fazer uso dessas frases, elimina toda ação da estrofe.
O mesmo não acontece na segunda estrofe, onde
encontramos a presença de três verbos intransitivos.
....... Na primeira estrofe o autor faz uso de sete subs-
tantivos (casas, bananeiras, mulheres, laranjeiras, pomar,
amor e cantar). Cantar, aparentemente, é a forma infini-
tiva da primeira conjugação, mas, na verdade, equivale
ao substantivo canto.
....... Mais interessante é que o autor relaciona casa entre
bananeiras. Bananeira, conotivamente, pode significar:
alimento básico da família, mercadoria que pode ser ven-
dida na feira, decoração de ambiente rural e até mesmo
pode cumprir a função de latrina. Por outro lado, o poeta
estabelece a relação de mulheres entre laranjeiras.
Laranjeiras trazem uma simbologia ampliada que podem
significar pureza, casamento (usa-se no casamento um
bouquê de flor de laranjeira), matrimônio, amor, etc.
....... A preposição entre, usada nessa estrofe, estabelece
uma relação de lugar no espaço, estreitando ainda mais
a relação desses elementos.
....... Carlos Drummond, como todo modernista da Geração
de 22, desrespeita uma regra gramátical (ausência de vír-
gula entre os termos coordenados da estrofe), para refor-
çar a unidade entre os elementos da cidadezinha qualquer.
....... Percebemos que o elemento humano mulheres está
preso entre dois versos. Visualmente, esta imagem nos
remete à condição de vida das mulheres do interior:
elas vivem em um ambiente fechado, sem direito a tomar
decisões, na condição de dona de casa. Vejamos:
....... --------------------------
....... mulheres entre laranjeiras
....... --------------------------
....... Já na estrofe que tem como referência o homem, a
estrutura se manifesta de uma maneira diferenciada, ou
seja, o homem está à frente de dois outros versos.
Isso nos leva a crer que o papel do homem na cidadezinha
qualquer é de liderança e de tomada de decisão: ambiente
externo. Vejamos:
....... Um homem vai devagar.
....... -------------------------
....... -------------------------
....... Na segunda estrofe, o autor faz uso de três verbos iguais
(vai). O verbo ir é um verbo intransitivo, destituído de obje-
tivos direto ou indireto. Compreendemos que todos os elemen-
tos da cidadezinha participam da mesma ação e da mesma mo-
notonia (o homem, o cachorro e o burro). A falta de objetivo
desses elementos é reforçado pela repetição intencional do
advérbio devagar, denotando a monotonia que envolve os
próprios.
....... Na terceira estrofe a ação intransitiva e o advérbio de
modo são novamente utilizados, para reforçar a idéia de mono-
tonia. O uso das reticências é significativo, porque amplia visual-
mente a curiosidade recatada do povo dessa cidadezinha.
Observamos que as janelas olham. Olham como? Através da
frestas das janelas. Entendemos que as frestas das janelas são as
reticências.
....... A última estrofe inicia-se com uma interjeição típicamente
mineira "Eta". Essa interjeição, expressão de um sentimento
súbito, na verdade, é o desabafo do poeta diante da monotonia
da cidadezinha.
....... A vida é besta, não por só se referir a simplicidade e tolice dessa
cidadezinha, mas também por fazer referência ao animal "besta"
por sua propriedade de ser estéril.
....... A solidão do autor, está explícita, quando faz uso do vocativo
"meu Deus". Entendemos que só Deus possa compreender seu
espanto diante dessa cidadezinha.

poemas avulsos (1989 - 1991)

poemas avulsos (1989 - 1991)


............................................ escultura em papel - beré lucas - 2009




disputa cantada

sabiá cantou bonito
canarinho não gostou
foi se fazer de rogado
seu canto desafinou

pardau deu uma vaia
canarinho reclamou
onde já se viu pardau
bicho que nunca cantou

meter o bico na conversa
quando ele canarinho
cantando fazendo festa
desafinar um pouquinho?

estorieta

....... certa feita, um homem como qualquer outro homem,
cansado de ser gente grande, se inventou de menino.
....... todos, mas todos mesmo, deram de dar gargalhadas
quando ele passava.
....... e ele, pelo tempo afora, resistia, fazendo de conta como
nem nunca ligava.
....... um dia, sem mais nem menos, seu corpo foi encontrado,
morto, abraçado a uma carretilha de soltar papagaio.
....... a partir de então, uma tristeza, miúda, tomou conta da
cidade.

aos trancos e barrancos

pôr esse calo
de cigarro
nos meus dedos
custa sarro

por esse calo
de palavras
no meu peito
pago caro

pesadelo

esse arrepio de notícia
mal dormida chegando assim
às pressas no doído coração
me acorda de sopapo a existência
feito um carro disparado
em contra-mão

e enquanto o tempo vai tecendo
o seu limite
os olhos dela nos meus olhos
são sem fim
estrada longa injetando o seu veneno
feito demônio simulando querubim

mineiridade

era uma vez um pai
cheio de UAIS
mineiras dores

solidão

larga de intenções
lá vem a solidão
arreiando o seu cavalo
de baio trote

e ninguém percebe
a roseta da espora sangrando
minhas virilhas

e ninguém escuta
o estalo do chicote marcando
meu lombo

larga de intenções
lá vai a solidão
me levando pela vida
miúdo e de barbicacho

no teu corpo

e no teu corpo
qu'eu renovo meu cansaço
me alrgo nos teus braços
me incendeio sem querer

e no teu corpo
qu'eu me faço bem mais forte
não tenho medo da morte
so de tocar em você

e no teu corpo
qu'eu me mato de prazer
e passo a viver mais
estando perto de você

e no teu corpo
qu'eu cicatrizo as feridas
que são tantas nessa vida
de a gente se perder

e no teu corpo
qu'eu me faço de menino
e você é o mais lindo
brinquedo de se querer

as pernas da bela

as tuas pernas são
um encanto
de tanta perna
e haja tanto
pra descrever
as duas belas:
que par de pernas
pernas louçãs
donzelas pernas

o que mais me deixa
intrigado
com as tuas pernas
é o contorno
dessa cor
nas duas delas:
belas pernas
perversas pernas
pernas de bela

tudo eu daria
desse mundo
qu'inda me resta
pra bem de leve
tocas de leve
nas tuas belas:
pernas malditas
que me tentam
benditas delas

ironia ambulante

o homem
na minha frente
sentdo
na sua miséria
compra outro e prata

de caça a caçador

o amor é caça rara
que atenta o caçador
se mostra some de leve
caipora é protetor

como caçar essa caça
se prenho dela estou
fera bela temporã
espoleta desse amor

na clareira dessa vida
acampado como sou
de espingarda despido

estou na mira da caça
farejando caçador
caçador é o amor

meu pai

meu pai
o tempo inteiro
através do tempo
desafiou o tempo

e o tempo
pra tormento do meu pai
se esquivava no tempo

como não havia tempo
pro meu pai me dedicar
o tempo inteiro ao tempo

meu pai com o tempo
foi definhando-se

e num contra-tempo
antes do tempo
ele acabou morrendo

agarrado
num relógio de bolso

mel : isca bela

que do amor vivências
tive e foram tantas
que não mais ouso
no seu fio m'enrolar

pois que gato escaldado
em água fria
em quente água nunca
mais quer se banhar

e entre o fio que tece
(doce armadilha)
e a água que molha
(doendo brando)

do amor por ti
(mel : isca bela)
eu prefiro ficar no canto
cá do meu só

estrutura da composição (1)

...... ( a outra )
... como diferenciar
... poesia de poema
... gema por dentro
uma estrutura que forra

um suporte que sustenta
......... preso lá fora
......... poema de poesia
......... como diferenciar
............... ( o outro )

ela

os olhos dela
já não têm mais brilho
parece um céu
que todo se turvou
é uma lembrança
de estrelas paridas
quando de luz
no espaço cintilou

o seu sorriso
se fez amarelo
e o que era belo
todo se enfeiou
que a dor de dentro
feito um cutelo
deixou o joio
decepou o amor

o corpo dela
todo bem moldado
aos poucos lento
se degenerou
que a vaidade
vento vasto indo
soprou pra sempre
nunca mais voltou

hoje mais nada
é o que resta dela
que de sobrante
nada mais ficou
só uma foto
exposta na parede
registra um tempo
em que houve amor

me dilacero

me dilacero
nessa espera quase inútil
em aguardar
o que por vir nunca virá
mas insisto
feito um empacado buroo
que as bordas
do horizonte não quer deixar

gata e égua

quero o teu corpo de gata
bem felino
me arranhando o corpo
me devorando a alma
miando nos meus ouvidos
toda depravada
quando te adentro toda
e te deixo molhada

quero o teu corpo de égua
bem potranca
me escoiceando o peito
me possuindo a calma
relinchando nos meus ouvidos
toda indomada
quando te possuo toda
e te deixo prostada

maria

maria andava triste
e tudo em torno dela
refletia sua tristeza
em pálida aquarela:

um céu ausente de azul
um sol de pardo amarelo
as flores (sem cores) coitadas
o mar mais um inferno

a noite escura sem lua
chovia lágrimas dela
as ruas um silêncio vazio
sem ninguém pelas janelas

tanta era a tristeza
que cinza em turvo dela
tudo se vestia assim:
velório ausente de vela

distante

distante
cheia de brilho
entr estrelas
a tua beleza
é feito lua
mais que todas
entre tantas

entretanto
de que vale
beleza tanta
se teu encanto
em tudo
(só) me reduz

nesse mar de angústia

nesse mar de angústia
meu barco eu sigo levando
feito um marujo atento
que continua esperando
encontrar não sei o quê
qualquer coisa de humano

nesse mar de angústia
meu barco em meio à tormenta
despido de vela e tudo
alguma coisa fomenta
por isso ele segue indo
naquilo de que se alimenta

nesse mar de angústia
meu barco em tudo já torto
capengando vai seguindo
no timão todo absorto
que o destino desse barco
tem norte por nome de porto

era uma vez um menino

era uma vez um menino
que sonhava acordado:
inventava estrelas
no dia alargado
e aprontava sol
na noite sisuda

era uma vez um menino
que sonhava acordado:
o que era feio
ele via bonito
e o que era encantado
mais lindo ele via

era uma vez um menino
que de tanto sonhar
todinho se encantou

dedicação
"um galo sozinho não tece uma manhã;
ele precisará sempre de outros galos."
.................................. joão cabral de melo neto

um galo
(carente) de voz

um galo
(sedento) de vez

ensaia sempre
os pintinhos

pra prolongar
sua vida

num canto

os quatro pontos da vida

no norte solto papagaio
onde brincam os passarinhos
e as núvens fazendo de conta
aprontam seus carneirinhos

no sul meus pés caminhando
inventam as coisas de cá
que a vida é um jogo tão lindo
e a gente não deve parar

o leste é meu braço direito
onde a mão se pôe a pintar
um sol dourado de cores
nascente que vem me acordar

do lado esquerdo do peito
é oeste o meu coração
onde nino o mesmo sol
e me transformo em canção

árvore

na terra finco meus pés
pro meu tronco se equilibrar
meus braços são galhos macios
pra passarinho brincar

o meu vestido copado
de folhas verdes que há
esvoaça no espaço esperança
se um vento vem me soprar

e quando chega setembro
feito menina esperta
me enfeito todinha de flores
que é tempo de primavera

era uma vez

era uma vez um canteiro
vazio carente de flor

era uma vez um jardineiro
que transbordava de amor

um dia (não importa quando)
o canteiro essa mão tocou

a terra toda feliz
ao trabalho se entregou

e a vida germinando
o seu jeito de espera

aprontou lá no canteiro
um tempo de primavera

pintando o sete

eu não sei se o sete
de setembro proclamado
tem a força do vento
que sopra meu papagaio

eu não sei se o sete
dessa fita verde-amarela
traz as cores mais bonitas
que as cores da primavera

o setembro é mais além
quando a gente pinta o sete
lançando no ar papagio
e de liberdade se veste

esse amor

esse amor tão dividido
que em nada já me farta
dói no peito bem profundo
que nem fenda de chibata

que nem lanho de chibata
essa dor vai me mordendo
e em tudo já me perco
naquilo que vou sofrendo

naquilo que vou tecendo
esse amor mais me sufoca
ando perdido e sem rumo
caminhando em linha torta

pouco importa esse amor
naquilo que mais me importa
que essa dor é sem limite
adverso que me estoca

pouco eu sei de amor

pouco eu sei do amor
que por ele fui pisado
que na estrada do passado
dele mais nada restou

pouco eu sei do amor
do seu jeito inusitado
é ferida que de largo
no meu peito se estreitou

pouco eu sei do amor
é como se não houvesse
amargura que se tece
me despindo de ardor

pouco eu sei do amor
essa ausência tão presente
é que nem igual parente
que no tempo se deixou

pouco eu sei do amor
é tortura incendiada
chama acesa que se apaga
é cinza que só ficou

algumas considerações em torno de uma boca

a tua boca bonita
de carmim toda enfeitada
em tudo é tão bem bonito
que às vezes me recato

pra que tanta boca bonita
no teu rosto desenhada
se entre mim e essa boca
é longa é tanta estrada

por tua boca bonita
de mulher tão alvejada
eu daria um reino
pra encurtar caminhada

eu por mim

eu por mim (naquilo que me atrelo)
sou abdicação: corpo sem mercado
sou assim: de alma lavado

eu por mim (naquilo que lido)
sou dedicação: gesto abrandado
sou assim: para o ser amado

eu por mim (naquilo que amo)
sou rendição: inteiro entregado
sou assim: esquerdo de lado

aprendizagem

a tua ausência é
um forte aprendizado
e sem alarde aguardo
o nosso dia

que o tempo da espera
fio por fio
aos poucos vai tramando
nossa chegada

pra quem deseja tanto
séculos são só segundos

soneto

às duras penas me safei do amor
por isso ando um tanto arredio
feito uma corda-bamba tecendo o fio
pra despencar de cima o amador

mas como evitar esse grave risco
se a vontade antecede a dor
que a queda é coisa tão antiga
e em se caindo se sacode o pó

mas feito um gato antes escaldado
de água fria medo ele tece
eu antecipo tudo de daninho

como que sem saber do rumo
me atiro sempre nesse poço fundo
correndo o risco de um encontrar

algumas considerações sobre um seio

o teu seio é feito para
onde sem gula sacio
a minha sede de amante
se equilibrando num fio

por ser fruta o teu seio
tem a polpa da manhã
por isso te toco sempre
com essa vontade terçã

e é no teu seio de fruta
que me entrego de-vez
como nunca havia sido
perante outra mulher

assim sendo

eu não espero do amor
nad em troca
que o amor (só por si)
vai além disso:
é pular no escuro
correr o risco
é equilibrar-se
tecendo a corda-bamba

eu não quero do amor
nada de troco
que o amor (por si sendo)
trama seu visgo:
é atar-se um ao outro
por espírito
enquanto a carne
bonito se dimensiona

algumas considerações em torno de uma bunda

a tua bunda bonita
me lembra montanha mineira
é feito coisa faceira
alargada de horizonte

a tua bunda bonita
é coisa mais que divina
e nela o que me fascina
é o seu modelado contorno

pra que tanta bunda bonita
se os meus olhos no que fita
espiam tanto de longe
essa beleza tão de perto

ensaio de vôo
(ou de como a gaiola humana escancara suas portas)

pelos teus seios rosados
mil sóis eu te daria
se esse brilho eu tivesse

por tua boca bonita
te daria um arco-íris
se essa cor eu tocasse

por tua mão me alisando
seu escrvo eu seria
se esse dom me deixasse

por tuas lindas entranhas
me inventaria de banana
se essa casca eu tivesse

despido inteiro de brilho
e dessas cores ausente
deixo o escravo de banda
que ser é além da banana

e que role como vier

caravana da esperança

lá vai a caravana da esperança
com sua tropa de cavalos bem surrados
virando à esquerda da esquina da vida
com seu trote repisado de passado

lá vai a caravana da esperança
trotando torta e de pêlo bem escasso
seguindo indo vai sumindo a caravana
feito lembrança corroída de passado

e no ponto de sumiço a caravana
feito poeira lerda lenta a se levantar
como quem já cansado dessa vida
no vazio ainda insiste em respirar

lá se foi a caravana da esperança

baú de saudades

na capanga do coração
quase nada é encontrado
pouca coisa dele restou
no embornal do passado
que com o tempo corroendo
ficou meio desgastado
esquecido em um canto
invertendo o seu contrário
e pelo buraco tecido
em forma de alargado
um só retrato restou
pelo desejo mascado
descorado de lembranças
pelo amor que havia estado

sábado, 11 de julho de 2009

antologia poética - (1976 a 1985)

antologia poética - (1976 a 1985)






deus barbudo

um deus barbudo
carrancudo
todo senhor de si
lá do seu latifúndio largo
cheio de pigarros
tossindo grosso
me disse:
- vai beré
ser besta na vida

dos meus óculos míopes
miúdo
cá de baixo
entre os homens
descobri
que deus
apesar de tantos
estava
redondamente enganado

e eu desculpo deus
por isso

ausência de poesia

imparciais
as palavras
desafiam o poeta

indiferente
o poeta
espia as palavras

entre um e outro
nada se revela

e o tempo ponteia
no espaço em branco

um canto mudo

meus irmãos

desconhecidos
os meus irmãos são
tprtps
iguais em tudo

desfalecidos
os meus irmãos são
turvos
iguais em terra

desvalidos
os meus irmãos são
tardos
iguais no tempo

desvanecidos
os meus irmãos são
todos
iguais em tese

elegia

um solo morno e displicente
(mis do que antes devia)
espreguiça no horizonte
sua pálida vontade

uma tristeza profunda
de neblina resfriada
dói no tempo (e como)
feito faca afiada

estendida a montanha
mal sustenta o seu gesto
debruçada em terra fria
cheirando a coisa velada

e por detrás a vida
muito mal iluminada
simula um lerdo brilho
quando (in dentro) só morre

um homem vestido de branco

que seu passo livre
passeando a casa
abra longos sulcos
revolvendo a terra

que seu canto limpo
plante onde cava
semente maior
com gosto de ser

que seu gesto branco
apronte pra sempre
dentro em nosso peito
deminsão de vida

que vossa colheita
seja toda nossa
dividindo frutos
repartindo amor

palavra qu'eu espreito

a palavra qu'eu espreito
tece na boca um calado
me olha casmurra e lacrada
aprontando seu canto surdo
se vestindo de mudez

a palavra qu'eu espreito
me engana a toda hora
com seus dois gumes de faca
me espiando de fora

a palavra qu'eu espreito
é seca nunca transborda
só me ferindo por dentro
me convidando pra fora

a palavra qu'eu espreito
não se vexa nem com tapas
e se atarraca à garganta
com seu silêncio e pirraça

houve um tempo

onde o tempo não habita
com ponteiro demarcado
bem pra lá do outro lado
esquerdo do coração
houve uma vez um menino

onde o espaço não se fita
com quintal esverdeado
lá pelas bandas da brenha
do peito ensimesmado
houve uma vez uma casa

onde o tempo não se fita
e o espaço não habita
houve uma vez um menino
houve uma vez uma casa
e essa saudade que finca

liberdade

se o penhor dessa LIBERDADE
conseguimos
inda que tardia

entre o sangue nosso
derramado
trucidado vai raiando o DIA

canto de libertação

que o terno não seja
o limite do seu corpo
e nem que haja gravata
sufocando o seu pescoço

que a viseira não seja
a dimensão dos seus olhos
e nem que haja olheiras
escavacando a sua cara

que a mordaça não seja
rolho pra seu sufoco
e nem que haja palavras
entrelaçando o seu mofo

que as mãos não sejam
a gula do seu possuir
e nem que haja nos dedos
suas contas a fluir

que os sapatos não sejam
o seu programado caminho
e nem que haja nos passos
rastros traindo seus pés

que os braços não sejam
suas porradas no vento
e nem que haja nos gestos
seu vício de bater ponto

e que você não seja
papel fedendo a arquivo
e nem que haja na vida
o seu destino de rato

canto de fé

nenhum fuzil
reprime o meu canto

nenhuma mordaça
cala a minha voz

nenhum carrasco
me apronta medo

nenhuma viseira
veda os meus olhos

nenhum dinheiro
me compra a verdade

nenhuma farsa
me dobra a certeza

de que um sol mais largo
está pór brotar

a respeito de um determinado tempo

o tempo escoado
não é um quarto apagado
de luz tão carente
com gotas de vela

o tempo escoado
não se conta nos dedos
e nem se tranca em baú
o que se fez de memória

o tempo escoado
não são águas perdidas
que cumpriram seu destino
de moinho rodado

o tempo escoado
não são rastros tecidos
deixados de banda
numa estrada qualquer

o tempo escoado
não é um canto traído
atarracado à garganta
ruminando nudez

fogo sob cinzas

e se de repente
nos olhos embotados
um brilho se fizesse
na cara todo estampado

e se de repente
no passo extraviado
um destino se traçasse
inverso ao programado

e se de repente
no braço injustiçado
o punho alevantasse
seu gesto de desforra

e se de repente
na boca trucidada
a voz entoasse
o canto sempre esperado

e se de repente
do povo viesse à tona
o indigesto engolido
após estes tantos anos

e se de repente

surdina lilás

já fui moça de família
hoje farsa de bandido
e de coração partido
dou meu corpo pra quem quer
já sonhei hoje me cala
sou retalho de mulher
sou a puta dos tostões
a mais fácil mulher
égua estreita pasto largo
nas camas dos rendevouz
e todinha me amofino
na surdina do abajour

trajetória traída

eu sou o dono da fala
que por enquanto se cala
espreitando a sua vez

eu sou a terra cansada
pelos meus braços trepada
parindo frutos

eu sou o posseiro da praça
sobrevivendo à desgraça
do seu poder me engolindo

eu sou essa mão alargada
digital em pátria amada
construtor dessa nação

eu sou na força do braço
o timão de toda raça
eu sou o povo na história

um soneto bastardo

tanta vergonha em mim
me vem da origem que sou
certificado em nascimento
e de certidão parido

sou o bastardo da raça
filho da fome e do medo
mamando no esgoto da história

sou o comparsa da trama
o da boca sempre calada
a cadela do meu patrão

sempre abanando o rabo
pras porradas que um dia
me fizeram brasileiro

nosso tempo

nosso tempo
é o de dar nó
em goteira
matar cachorro
a grito
pernilongo
a beliscão

estamos num mato
sem cachorro
perdidos
que nem cego
em tiroteio

o amor
é um chute no saco

ofício de cachorro - profissão poeta

fazer poesia
é andar de quatro
na vida
farejando o resto das palavras

é dar mijadas
no poste do tempo

é engatar o rabo
na cadela da cachorra

é dar latidos de homem
neste mundo cão

na ordem do dia

perdi a armadura
a vocação pra herói
e o cavalo qu'eu nunca tive
me deixou a pé

catapultas me ferem
perante o dia
à noite cantochões
me esfarrapeiam a sorte

não trago de quixote
a ilusão diária
nem panchovilo
porções de açoite

estou (só) neste país
exposto à bigorna
oficialmente na ordem do dia

aleijadinho

transfugado de deus
o homem aqui na terra
peca por ser humano

a insana dor doída
na carne que perece
profundamente cava
na pedra endurecida
os dedos do céu

e ao relento
como um cão abandonado
um cinzel esquartejado
misturando deus e diabo
fere o tempo

em tempo de adeus

a vida não pára
e o tempo se esgota
numa exatidão infinita

o que se passa
no meu coração
não sei
a mim me basta
a ignorância enxuta
de eu estar sozinho
tracando rumos

passos plurais
sou inteiro
em cada gesto
em cada fala

e me entrego em luto
(pra você inteiro)
perante o havido

recado

maria
este país
num tá nada legal
vamos pedir a conta
e sair deste boteco

há sempre

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder olhar
em cada dobra de esquina
em cada resto de lar

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder tomar
em cada corpo debruço
em cada herói-calabar

há sempre um pouco de sangue
pra gente poder gritar
em cada língua torcida
castrada no seu falar

hé sempre sangue de sobra
pra gente poder lutar
nessa sangueira danada
chamada de nosso país

me perco na geografia dos fuzis

baionetas soturnas
calam vozes
limitam vidas

aparentemente
não há dor
num país de out-doors

enquanto isso
o povo come calado
o pão que o diabo
amassou com o rabo

meu silêncio

meu silêncio
cheira a sangue

não vou reter o gesto
limitar a fala

há uma vala vazia
espreitando corpo

e o silêncio me dói
feito fuzil
num corpo amigo

na ausência da palavra

o poema por (se) fazer
e que não tem sentido
é um resto cansado da noite
circulando intenso na vida

o poema por (se) fazer
e que não foi feito
é um sentimento inexato
no ato im-próprio de ser

o poema por (se) fazer
e que não foi possuído
é um papel todo em branco
de palavras ausentes

jogando limpo

(eu comigo)
a consciência exata
do meu limite:

a palavra nunca dita
a vida nunca doada
e uma vontade incrível
de fazer de conta

facalha

faca fere feito folha fina
fere feito faca fina folha
fina faca folha feito fere
folha fina fere faca feito
feito folha fina fere faca

sábado, 27 de junho de 2009

antologia poética - 1987

antologia poética - 1987





trilhos


se de vitória
o nome trago
por escrito


de luz
meu sobre-nome
só transbrilha

mas na verdade
nada disso acontece
que de perdedor
em tudo opaco
são os meus trilhos


ainda se marcam os gados


quem já sentiu a dor do amor
traz lesado em profundo o coração
é proção reservada nessa vida
liga pouco e retrai na intenção


quem já do amor marcado foi
em pêlo vivo sempre será
a cicatriz do ferro visgo
mordendo dentro da solidão


quem já remédios procurou
pra ter alívio desse fogo
engana a brasa mas a chama
- que vive acessa - engana não


gauche


um passarinho cagou
no meu peito:


em erva-daninha
seu canto teceu
uma rede
me emaranhando
pelos lados todos todos


um passarinho cagou
na memória:


em erva-daninha
(por experiência)
sua merda
é uma mangueira
miúda de fruta
complicada de limpar


novo dia


quem do sol a luz
sorveu um dia
não pode à treva
se atrelar
que a esperança
se reveste de morteiro
lançando além do peito
o esperar


que por mais que prolongada
seja essa hora
feito fera rosnando
no seu dentro
quem do sol a luz
sorveu um dia
põe na espera
o encontro do momento


van gogh


nas entranhas
do existencial
van gog
mamou
e viu
que o esgoto
fala mais alto
por imposição de lei


estrela inútil


alta e fria uma estrela
eu nunca vi luzindo
no meu dia-a-dia


tão alta tão fria
(sozinha)
uma estrela deve ser
longe dos meus olhos


sem a minha companhia
(distante)
uma estrela é solidão
num céu inútil de cor


sombra profunda ausente
uma estrela é nada
perante ao que não espio


memória


eu nasci quando
minha mãe
cansada
de tanto parir filhos
raspou no tacho
(das entranhas)
minha existência


uma luz pálida
cheirando a V I C K
me ninava na cama
sem respiração
a minha insônia


vontade de poder dormir...


primavera


suspeitam que as flores
durante os meses
todos
se reservam
e se aprontam
lindas
pra setembro


eu confirmo


germinação


quando o sol
trepa na terra
feito um garanhão


grávidos de setembro
os canteiros
parem flores


permanência


uma estrela nunca
............ cai
cintila sempre


R O C H A


a poesia brsileira
está necessitada
de uma dose
de sal
D E G L A U B E R


amor não se negocia


amor não se negocia
que o amor não tece preço
é o inverso do avesso
naquilo que então se fia


se negociado o amor
pelo preço então tecido
o inverso do avesso
deixa de ser pelo sido


conceito


a saudade
é uma chave-de-fenda
arrochando
um parafuso
(dentro)
do meu peito


panorama
(a propósito de sinestesia)


um vento fogoso
fazia farfalhar as folhas
que de verde tiniam
ao sol da manhã
pra ser só brilho
estalando nos olhos
matálica aurora


de frio o orvalho
se vestia de gota
roubando das rosas
um cheiro macio
de pétala gostosa
feito em sabor de primavera
escancarando da boca


envolvendo a todos
nos sentidos da vida


cantiga de amor


debruço meu coração
no que me arrisco
amando a ti
submisso e atrelado
feito um vassalo


que o tempo por média
não traz idade


debruço meu coração
no que me insisto
amando a ti
feito um refrão pisado
mas de cantoria revestido


que o amor só por si
é mais que um fardo


distância


linda
tu te alargas deste azul
feito um mar
(misteriosamente)
decorado pelo trigo
e eu navegante
no que persigo
sem norte
te espio
aqui do sul


poética


na dimensão da espera
sedimento meu canto


no exercício sempre
amadureço minha poesia


e de simplicidade vestido
me eternizo em palavras


F E C H A D O P R A B A L A N Ç O


(atrás da porta do peito
há um estoque de vida
empilhado
na prateleira do tempo
pedindo avaliação)


A B R I R E M O S B R E V E


lamento
(pra ailton e grupo de teatro kaquende)


acorda sabará acorda
pra essa história escutar
nosso canto é um lamento
em cada peito ele está


acorda cidade acorda
engrossa essa procissão
da vela velando "o velhas"
morrendo em nossas mãos


acorda sabará acorda
vem a fileira engrossar
derramando suas lágrimas
neste rio por secar


acorda cidade acorda
que a morte está chegando
batendo em suas portas
por um rio lamentando


acorda sabará acorda
vem com a gente chorar
que o rio das velhas agoniza
não pode mais esperar


dois tempos


quando eu era pequeno
(deitado no balcão
da loja do meu pai)
um céu bem próximo
me ditava lições de nuvens
eu tinha a sensação
de que subindo o morro
podia tocar o infinito
com a ponta do dedo


estando agora grande
(sentado na mesa
de um bar qualquer)
um céu ausente
não me ensina nada
e eu tenho o presentimento
de que aos poucos morro
com a ponta do dedo
escarafunchando o nariz

sexta-feira, 8 de maio de 2009

dimensão lírico e histórica

dimensão lírico & histórica (poesia quase memória) - 1971-1986













biografia I

durmo pouco
fumo muito
bebo mais ainda
e sonho de propósito
só pra incomodar

no ano que vai longe
antigo de 52
nasci
quando fevereiro
se vestia 16

com meu pai aprendi
que o encantamento das coisas
se faz com as mãos

com meu pai aprendi
que a poesia da vida
tem um gosto de bandolin

com minha mãe aprendi
a paciência profunda
o suspiro breve
a entrega sem resposta
e o amor sempre

seguindo a linha do trem
minha cidade enfeitou-se de casas
para ser mais adiante
minha bom jesus

o tempo (burro lerdo)
levou minha infância
num cargueiro de bananas
enquanto eu jogava bola

sacramento é o rio
que banhou minha infância

papagaio é o azul
que me ensinou a liberdade

sob o signo
de brinquedos e brincadeiras
vivi

aos 7 anos
manuel bandeira
invadiu meu quarto

aos 7 anos
o amor
cutucou meu coração

(esse amor me acordava
de madrugada
pra fazer versos
- vizinha que era a minha saudade)

quando eu tinha 12 anos
um rádio SEMP
de três faixas
vomitou nos meus ouvidos
o golpe de 64

desde então
deixei de andar
na garupa da bicicleta
do meu cunhado-soldado

sobre os trilhos da LEOPOLDINA
deixei minha cidade
no ano de 67
rumo a belo horizonte

no coração
trouxe terra
na mala
roupas novas
que sempre me incomodaram

(até hoje não consegui vestí-las)

belo horizonte continua sendo
até hoje
para mim
um mistério

aonde fui amarrar minha égua
eu não sei

mas deste cabresto
se alargaram lindos:
thiago e camila

biografia II

durmo pouco
fumo muito
bebo ainda mais
e sonho de propósito
só pra incomodar

minha poesia
é um menino antigo
sentado na cancela do tempo
afiando o seu bodoque
tecendo uma pedrada

minha poesia
é onde o tempo
não marca espera
nem ponto de chegada

minha poesia
é uma mulher qu'eu nunca tive
esperando sem pressa
um dia ser amada

minha poesia
é a miséria do povo
cantando na rua
a sua fome

minha poesia
não traz gula
nem palavra espreitada

minha poesia
é a vida acontecendo
e o meu caminhar com ela

dimensão lírica

me perco no ranço dos poetas idos
meu quarto é uma mistura secular
e eu sou o lacaio de uma geração sem números

é noite
bandeira tossse da estante
e com voz rouca
anuncia:

- vou embora pra pasárgada!

- alva é, vai liero!

e manuel foi mesmo
mas me deixou
aqui
lacaio
com o peso da sua lira

cantiga de amor

senhor minha senhor
que dor eu sinto em meu peito
triste assim e tão sem jeito
desprezado e apartado
sozinho sem seu amor

..................... esteja onde eu for
..................... essa dor anda comigo

senhor minha senhor
essa dor dentro da alma
já engoliu minha calma
desprezado e apartado
sozinho sem seu amor

..................... e esteja onde eu for
..................... essa dor anda comigo

senhor minha senhor
essa dor desatinada
é ferida desdobrada
desprezado e apartado
sozinho sem seu amor

..................... e esteja onde eu for
..................... essa dor anda comigo

cantiga de amigo

oh rio que corre manso
sem ter pressa de chegar
se meu amor avistar
fale com ele por mim

..................... dia a ele que muito amo
..................... e por ele estou assim

o rio que corre indo
pra desaguar no mar
se meu amor encontrar
fale com ele por mim

..................... diga a ele que amo muito
..................... e por ele estou assim

oh rio que corre lindo
pra todo se encantar
se com meu amor conversar
fale com ele por mim

..................... diga a ele que muito amo
..................... e por ele estou no fim

oração

povo nosso
que está na terra
santificado seja
o vosso ombro
e que venha a vós
o vosso reino
e que seja feita
a vossa vontade
assim na terra
aqui na terra

o pão vosso
de cada tomai-o hoje
e não vos deixeis
cair em enganações
e livrai-vos
de todos os tiranos
também

medievalismo

deus aliou-se aos senhores
feudal fez o meu canto
bardo do desencanto
pelo amor pisoteado

- o que lamentas poeta
de alma tão pura

a igreja invertendo o rumo
atrelou-se à cristandade
e o meu canto sem maldade
coitado- perdeu-se em rimas

- o que lamentas poeta
de alma tão pura

vassalo da ladainhas
da carne me apartaram
no refrão me amarraram
me estreitando o caminho

- o que lamentas poeta
de alma tão pura

fui amigo fui amante
pelas cruzadas briguei
repassaram minha terra
sem amores já pastei

- o que lamentas poeta
de alma tão pura

já me fizeram de bruxo
me inquiriram sem lei
trancaram minha garganta
na fogueira me queimei

- o que lamentas poeta
de alma ...

essa terra é toda plana
sempre me afirmaram
centro deste universo
pela bíblia me enganaram

- o que lamentas poeta

a terra só não me basta
vejo mais além um ponto
mas se toco um dedo n'água
-nesta terra habita monstro

- o que lamentas ...

se o dia vai e vem
e a lua sempre aparece
é nesse giro da terra
que o sol todinho se tece

- o que ...

feito um raio que ilumina
que clareia toda a prece
desta fé tão obscura
que em tudo me enfrequece

essa vontade essa gula
de velejar pelo mar
"nunca d'antes navegado"
pelo prazer de remar

e espalhando o meu canto
nele vou me atirar
que o braço é meu timão
lanço velas pelo mar

e de peito alargado
sou marujo sou mais forte
já não temo mais a morte
navegar se faz preciso

quando os portugueses
aportaram (in)vestidos
aqui nu brasil
se disfarçaram de deus

e deus
que não tinha nada
a haver com a estória
tirou o rabo da reta
sartô fora

e deixou os galegos
metidos à besta
serem papados
(feito sardinha)
pelos índios

esse tempo na cabeça
esse deus me atormentando
e se vivo a vida inteira
do céu vou me apartando

esse corpo provisório
da carne me reclamando
esse céu tão permanente
e o diabo me atentando

se vivo a terra perco o céu
como juntar azul e terreno
fico só sem ter medida
que a carne é doce veneno

nada na vida me importa
e tudo tem seu valor
que a vida é amarga porta
doce vaidade de flor

se cristo meu salvador
de mão atadas me pune
eu de mãos soltas só peço
que o pecado é meu lume

prazer perdão punição
já não sei o que fazer
se vou pro céu perco a terra
sem a terra o que tecer

breve
e provisório
(enquanto cheiro
enquanto cor)
sou flor

eterno
e constante
(enquanto terra
enquanto dor)
sou tempo

cheiros
me dilaceram
ponteiros
me trucidam

neste breviário
(diário constante)
nessa missa
(cinza das horas)

de corpo presente

aleijadinho
pro elias

transfugado de deus
o homem aqui na terra
peca por ser humano

a insana dor doída
na carne que perece
profundamente cava
na pedra endurecida
os dedos do céu

e ao relento
como um cão abandonado
um cinzel esquartejado
misturando deus e diabo
fere o tempo

deus parou no que fez
céu ...... terra ....... mar
noite .........e .......... dia

deus está no que fez

o homem comeu a maçã
e gerou a máquina

o homem muda muda muda
mas a muda fica

o homem fez com que deuz fizesse
e deus ficou

deus está no que fez
deus está no que não fez

deus está terrivelmente incrustado em tudo

barroco

o barroco
é a bissetriz da indecisão

é deus e o diabo
comendo
(na mesma mesa)
o prato servido pelo humano

é a pedra sabão
enganando o tempo

é um cinzel doído
aleijadinho
cravando na vida
um gosto de morte

um deus barbudo

um deus barbudo
carrancudo
todo senhor de si
lá do seu latifúndio largo
cheio de pigarros
tossindo grosso
me disse:
- vai beré
ser besta na vida

dos meus óculos míopes
miúdo
cá de baixo
entre os homens
descobri
que deus
apesar de tantos
estava
redondamente enganado

e eu desculpo deus
por isso

reverso

no reverso do meu verso
a palavra nunca dita
pulsa insatisfeita
tecendo seu desespero

no reverso do meu verso
a palavra nunca dita
lança seu grito mudo
no planeta dos calados

no reverso do meu verso
a palavra nunca dita
é pior que um grito mudo
é uma boca trucidada

ofício de cachorro - profissão poeta

fazer poesia
é andar de quatro pela vida
farejando o resto das palavras

é dar mijadas
no poste do tempo

é engatar o rabo
na cadela da cachorra

é dar latidos de momem
neste país de cão

armadura

perdi a armadura
e a vocação pra herói
e o cavalo qu'eu nunca tive
me deixou a pé

catapultas me ferem
perante o dia
à noite cantochões
me esfarrapeiam a sorte

não trago de quixote
a ilusão diária
nem panchovilo
porções de açoite
estou (só) neste país
exposto à bigorna
oficialmente na ordem do dia

a vida não pára

a vida não pára
e o tempo se esgota
numa exatidão infinda

o que se passa
no meu coração não sei
a mim me basta
a ignorância enxuta
de eu estar sozinho
traçando rumos

passos plurais sou inteiro
em cada gesto
em cada fala

e me entrego
(pra você em luto)
perante o havido

que não seja

que o terno não seja
o limite do seu corpo
e nem que haja gravata
sufocando o seu pescoço

que a viseira não seja
a dimensão dos seus olhos
e nem que haja olheiras
escavando sua cara

que a mordaça não seja
rolha pra seu sufoco
e nem que haja palavras
entrelaçando o seu mofo

que os sapatos não sejam
o seu programado caminho
e nem que haja nos passos
rastros traindo seus pés

que as mãos não sejam
a gula do seu possuir
e nem que haja nos dedos
suas contas a fluir

que os braços não sejam
suas porradas no vento
e nem que haja nos gestos
seu vício de bater ponto

e que você não seja
papel fedendo a arquivo
e nem que haja na vida
o seus destino de rato

ouro preto

ouro preto mesmo
é de noite
ao relento

é este relicário
de saudade eterna

é a permanência
das coisas já existidas

um anjo tingiu o céu de memória

de pai pra filho
pro elias

o amor
é feito o bandolim
do meu pai

em bom jesus
na caso do
mario-da rumana
todas as noites
(infalivelmente)
entre os amigos
ele tocava sempre

um dia
(não sei por quê)
meu pai perdeu o gosto

e deixou o bandolim
mudo
(de propósito)
numa canastra antiga
pros ratos roerem

- fizeram-se dois buracos

durmo pouco
fumo muito
bebo mais ainda
e sonho de propósito
só pra incomodar

terça-feira, 5 de maio de 2009

o jogo das palavras

o jogo das palavras (poesias infantis) - 1999
o gato sonhador ö
o gato
angorá
já não
quer caçar

fica
o dia inteiro
de pernas
pro ar

esperando
que a vida
lhe sirva
um atum

inocência

anjinhos pelados
no varal do arco-íris
dependuram suas asas
e tomam sol

cabritando

a bicicleta do menino
é mais que poesia
quando "cabrita" faz lindo
na gravidade se fia
desafiando a vontade
do outro menino que espia
o brio da brincadeira
sem eira mais que devia
na beira do encantado
da bicicleta tão viva

coisa de doido

quando o menino
chegou no céu
(nem tinha feito dez anos)
ele ficou encantado:

são pedro de pé quadrado
saltitava de muleta
(que nem um capeta)
corria atrás dos anjos

saudade

saudade
é que nem passarinho
que fugiu da gaiola

a gente
só sente
o seu canto

aventura

o BATMAN




deu um sopapo
no vento

super star

liberto da gaiola
passarinho virou anjo

com pouco tempo no céu
aprendeu a tocar banjo

e montou com gabriel
o mais famoso arcanjo

um conjunto de jazz

gripe

o sol amanheceu morno
sem vontade de raiar

atrás da montanha


começou a espirrar

dá pra acreditar?

o bicho papão
assustou de montão
e tá com dor de barriga

- intriga da oposição

faz tempo que o coitado
não assusta nadinha
com medo da minhoca

o cuco

o que mais
me encuca
é o cuco
lelé da cuca
do relógio
que o dia
inteiro
de hora
em hora
a toda hora
sai pra fora
da gaiola
do tempo
só pra marcar
e nunca quis
em hora alguma
no céu aprontar
o seu voar

saudade

meu tempo
tem dois ponteiros
um marca seis
outro quatro
como brincam
esses ponteiros
bagunçando
pelo espaço

meu tempo
tem dois ponteiros
uma marca seis
outro quatro
no mostrador
do meu peito
esses ponteiros
me fartam

coração de menino

coração de menino
é um desejo secreto
baú de surpresas
repleto de invenções

- - - - - - - - - - - - - - -

que esse H
minúsculo da História
fique com os grandes

que esse e
maiúsculo da estória
fique comigo

era uma vez

quando penso nessas coisas
velejo pela memória
vou sonhando
de vagar ...

dois tempos

em cima da mesa
o sol é um ovo
ninando seus raios
por dentro da casca

quebrado no chão
o ovo é um sol
molhado de brilho
por fora da casca

perdido

tô perdido
que nem tal passarinho
na gaiola do tempo

- num pio nada!

leilão das coisas

quem dá mais
por um periquito
de bico dourado
e asas de vento

quem dá mais
por uma borboleta
cheia de tretas
colorida de cores

quem dá mais
por um jasmim
só no jardim
inventando coisas

quem dá mais
por um papagaio
com raios de luz
e rabo de sol

quem dá mais
por uma nuvem
nuinha de cores
e de formas tão raras

quem dá mais
por um regato
recatado num canto
e de águas azuis

quem dá mais
pelo papel em branco
cheio de encantos
e de poesia sedento

papagaio no céu

papagaio no céu
pegou carona no vento
e no seu doce contento
saltitou feliz no sol

papagaio no céu
brincou de ser criança
comeu tanto algodão-doce
que encheu a pança de nuvens

papagaio no céu
ficou tão encantado
que se inventou de cometa
pra na noite ser notado

coisa de (in)vento

o vento vinha ventando
brincando de ventania
assoviava e sorria
muito mais do que devia

e feito menino de rua
que na pelada se fia
s'enrolava na poeira
redemoinhos fazia

tentação

o capetinha (coitado)
já não pode descansar
faz tempo que o tadinho
não dorme
tá vermelho prá daná

um bando de anjinhos
(atentados)
só vivem a aprontar
na porta do inferno
(baderna)
cantoria sem parar

batucam samba nas nuvens
ruflam asas pelo ar

lua branca

a lua branca
no céu
arma o seu tecido
de uma leveza
que parece flutuar

é tão clara
que chega
a ser transparente
que dá pra gente
ver são jorge cavalgar

a lua branca
no espaço
é tão formosa
é que nem rosa
desabrochando no ar

é tão redonda
que até
parece um queijo
que da vontade
da gente beliscar

globalização

o mundo que era grandão
ficou bem pitititinho:
se chover no meu quintal
o mundo molha todinho

papagaio

menino na rua
com vento de agosto
da gosto de ver:

cabeça no céu
além do infinito
futrica papel

dor de dente

o rato foi ao dentista
pra dor de dente parar

chegando lá o coitado
mal podia falar

a boca estava inchada
dava dó de espiar

- abra a boca seu ratinho
vamos ver o que quê há

o dentista cheio de cuidados
começou a trabalhar

depois de muito tempo
pôde então se observar

um caroço de azeitona
um bitelo pra daná

estava preso no dente
garradinho no molar

infância

a poeira da rua
o pé na bola
o quintal do vizinho
a goiaba roubada
a água do rio
o corpo molhado
papagaios no vento
liberdade tramada

um fio de sonho
lembrança tecida
passado de infância
lamento perdido
saudade no peito
soluço pingado
menino no tempo
a alma partida

são joão

no céu estrelado
a lua vaidosa
se enfeita bonita
com um broche
dourada

na terra iluminada
a fogueira sapeca
estalando madeira
se faz infinita
chama

saudade

a saudade é um menino
perdido na vida do vento
feito papagaio antigo
que não encontrando abrigo
dá piruetas no tempo

e quando chega agosto
os olhos no seu contento
espiam além da linha
no horizonte do invento

só pra ser criança
outra vez

uma coisa puxa outra

no quintal da fantasia
plantei uma semente
pra semente virar flor

no canteiro da esperança
reguei uma flor
pra flor crescer árvore

nos galhos da certeza
alimentei um tronco
pro tronco ser bem forte

no forte da brincadeira
teci uma gangorra
pra gangorra m'embalar

no embalo desse sonho
balanguei uma criança
só por gosto de inventar