segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ORAÇÕES E BENZEÇÕES - RELIGIOSIDADE NEGRA

ORAÇÕES E BENZEÇÕES - RELIGIOSIDADE NEGRA - 2006
ALVARENGA, Berenício Lucas (Beré Lucas)


As orações e benzeções fazem parte da realidade social do povo humilde, pertencente à cultura espontânea. E como essas pessoas não tiveram acesso à cultura erudita (cultura escolar), suas rezas e benzeções são transmitidas oralmente, de pai para filho, mantendo a tradição de crença e fé desse povo oprimido.
As benzeções, muitas vezes, são deturpações de orações católicas, mas isso não invalidada a força das preces e desses ritos mágicos, cheios de poesia, sabedoria e fé.
Na tentativa de vencer as dificuldades do cotidiano, o povo lança mão das orações e benzeções, esperando, com isso, receber interferências divinas, ajudas espirituais de deuses, santos e orixás.
De acordo com o professor Kiffer, Alex (2007), as orações e benzeções classificam-se em quatro grupos:
1. Orações Litúrgicas;
2. Orações Populares de Adoração, Agradecimento em Preces;
3. Orações Irreverentes e,
4. Orações Fortes.

1. Orações Litúrgicas.

Estão presentes nos ritos católicos. Elas são Testemunhadas e recomendadas pelas Sagradas Escrituras. De maneira geral, essas orações são uma elevação da alma a Deus, para prestar-lhe homenagem e implorar graças.
Ex.: Pai Nosso, Ave Maria, Credo e orações de santos e santas.
Podemos distinguir várias formas de orações:
1. A Mental - que faz-se em pensamento;
2. A Vocal - que exprimem-se em palavras;
3. A Individualizada - feita por uma só pessoa e para si;
4. A Coletiva - pronunciada por um grupo de pessoas;
5. A Pública - que é feita por uma autoridade da Igreja;
6. A Litúrgica - proferidas nas cerimônias litúrgicas.

Pai Nosso
Pai Nosso que estais nos céus
(Deus está cima de tudo e de todos)
Santificado seja o Vosso Nome;
(Diz Deus: "Sede santos, porque Eu sou Santo)
Venha a nós o Vosso reino;
(O reino de Deus é a fraternidade)
seja feita a Vossa vontade,
Assim na terra como nos céus.
(Fazer a vontade de Deus é seguir a Sua palavra)
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
(Há muito pão nas mãos de poucos e muitos sem pão)
Perdoai-nos a nossas ofensas;
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
(Quem sabe perdoar tem uma amplitude de coração)
E não nos deixeis cair em tentação;
(Entrar no caminho do mal é muito fácil)
Mas livrai-nos do mal.
[Amém].
(Protegei-nos sempre indicando o bom caminho)

2. Orações Populares de Adoração

Estas orações caracterizam-se pela hereditariedade. Elas são passadas de pai para filho. Outra característica marcante, nessas orações, é a oralidade. Poderíamos até dizer que essas orações congregam em si as características do Folclore.

Então vejamos:
1. Anonimato - não existe um autor específico. A coletividade assume a autoria dessas orações;
2. Oralidade - uma pessoa ensina a outra, ou a pessoa aprende ouvindo;
3. Hereditariedade - os pais ensinam aos filhos essas orações;
4. Tradição - essas orações rompem com o tempo, ou seja, vieram do passado, se manifestam no presente e continuarão sendo rezados no futuro;
5. Funcionalidade - quando rezadas, elas têm um determinado objetivo: guardar a pessoa, espantar um mau-olhado, livra do perigo, etc.;
6. Aceitação coletiva - o povo aceita esse tipo de oração, principalmente as camadas menos privilegiadas, na tentativa de se pedir proteção às divindades;
7. Dinamismo - como diz o ditado: "Quem conto um conto, aumenta um ponto", ou seja, essas orações, tendo em vista a criatividade do povo, são sempre inovadas e lingüísticamente acrescidas de novos termos e expressões.

Utilizando uma linguagem simples, mais entendida pela camada popular que a gerou, essas orações são uma tentativa de vencer as dificuldades do dia-a-dia e conseguir a proteção e ajuda de seres superiores.
Nívio Ramos Sales (Rezas que o pro reza - Rio, Pallas, 2006) fez um levantamento dessas orações e catalogou-as da seguinte forma:
• Rezas para Casar
• Rezas Curadoras
• Rezas de Defesa
• Rezas para Enfeitiçar
• Rezas de Oferecimento
• Rezas para Vários Fins
• Rezas de Súplicas
Oração para Tirar Argueiro

Corre, corre, cavaleiro
Pela porta de São Pedro,
Vai dizer a Santa Luzia
Que me mande um lenço branco
Prá tirar esse argueiro.

3. Orações Irreverentes

Essas orações têm como característica o linguajar satírico. A criatividade e deboche do povo brasileiro deturpam orações tradicionais da Igreja Católica. O Pai Nosso serve de paródia para a pinga; os Mandamentos da Igreja ganham outra conotação na fala "dos que bebem a água que o canarinho não bebe". Vejamos:
Os Dez Mandamentos da Pinga
1º Beber
2º Cuspir
3º Pagar
4º Sair
5º Voltar
6º Repetir
7º Tombar
8º Cair
9º Vomitar
10º Dormir

Oração da Cachaça

Nossa cana que está no roçado
Bem preparado seja o vosso santo caldo
Venha a nós cinco litros por dia, para nós beber
Em casa e em qualquer lugar que nós encontrar
Perdoai-nos o dia em que bebemos menos
Não nos deixe cair atordoados
Livrai-nos da "Rádio Patrulha", assim seja.

Até os pontos de macumba são satirizados.
"Preto véio
Quando vem de Ariruana Mizifí
Mas o que é que ele come?
Bundinha de minino
E ... de home".

4. Orações Fortes

Diante de uma situação desesperadora, essas orações são feitas com a intenção de invocar forças espirituais para livrar a pessoa de perigos, medos e aflições.
O uso de orações fortes difere das demais orações, pois ela exige não só apenas habilidade, certo dom ou certa prática. Essas rezas são feitas com certos movimentos de mão, traçando o sinal da cruz.
Mães e madrinhas têm, de maneira geral esse dom especial, quando benzem os filhos e/ou afilhados. Esse dom especial deve manifestar-se antes dos treze anos, idade considerada máxima para a iluminação. Quando isso ocorre, a pessoa deve dedicar-se à leitura da Bíblia, para atingir o máximo de desenvolvimento e poder ao terminar essa leitura.

Oração da Cabra Preta
(Essa oração deve ser rezada com uma vela acesa e uma faca de ponta na mão)

Cabra Preta milagrosa que pelo monte subiu, trazei-me Fulano, assim como o galo canta, o burro rincha, o sino toca e a cabra berra. Assim tu hás de andar atrás de mim.
Assim como Caifaz, Satanás, Ferrobraz e o Maioral do inferno que fazem todos se dominar, fazei fulano se dominar, para me trazer cordeiro, preso debaixo de meu pé esquerdo.

Referências:
KIEFER, Alex - Projeto Uniafro. Apostila. Belo Horizonte, 2007.
SALES, Nívio Ramos - Rezas que o Povo Reza. Pallas. Rio de Janeiro, 2006.
MUNANGA, Kabengele - O Negro no Brasil Hoje. Global. São Paulo, 2006.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário